É quase como voltar pra casa, por Janaina Abílio

29/05/2026

Quando comecei a escrever É quase como voltar pra casa, ali no início de 2021, havia uma frase que vira e mexe me cutucava. Ou melhor, o acréscimo a uma frase que tinha se popularizado naqueles tempos: deus é uma mulher negra — e o diabo também.

Junto com esse acréscimo, com essa resposta, pairava também a sensação de que temos insistido muito nas histórias em que mulheres negras são vitimizadas, esmagadas em relações abusivas, sobreviventes de uma realidade cruel. Ou aquelas histórias em que são vitimizadas, esmagadas em relações abusivas, sobreviventes de uma realidade cruel, mas, de alguma forma quase heroica, superam isso. Às vezes com um nível de sabedoria sobre-humano.

Nada disso é mentira. Tampouco tenho algo contra essas histórias, tenho até pessoas queridas que facilmente poderiam ser, em parte, essas personagens.

Mas eu disse em parte, veja bem. Arrisco dizer que é impossível se resumir somente a isso. Temos muito mais a fabular e contar, muito mais. Eu diria que, apesar de já termos uma longa jornada, a gente mal começou.

Ava, a personagem narradora de É quase como voltar pra casa, deixa um rastro de dubiedade no caminho. O que também começou a me cutucar foi a voz de uma personagem cheia de controvérsias e de uma acidez incansável. O diabo pode ser debochado que só ele.

Eu sei, eu sei, mas não vou entrar no mérito de problematizar a tradição cristã do diabo aqui, o que quer que ele seja. Vale dizer também que não se trata do diabo lá como foi descrita Rita Baiana, a personagem clássica e já tão debatida da literatura brasileira.

A frase que me cutucava insistia na oposição deus versus diabo. Insistia na provocação de que só é possível ser deus para quem já deixou de ser considerada humana.

Ava não é a “mulata” do cortiço de Azevedo. Também não vive atrás da atenção de um homem branco, contrariando a tradição esmiuçada por Lélia Gonzalez em Racismo e sexismo na cultura brasileira.

Ava é uma doutoranda em filosofia, perturbada entre o espírito de sua namorada falecida, suas explorações pelo corpo de um homem negro e a ausência de seu pai, que desapareceu quando ela tinha seis anos de idade.

Com a mente cheia, Ava levantou sua própria oficina. É por essa mente que o livro percorre.

Também não se trata de reivindicar um direito à maldade. Mas talvez seja apenas o reconhecimento das contradições e mesmo de um aspecto infernal que há em

todos nós — e com o qual, se assumirmos essa responsabilidade, teremos que lidar. O grande perigo é justamente quando não assumimos.

Quando tão afastados de nós mesmos, de nosso corpo, de nosso sentir, tão longe de casa, que não há como organizar suas tralhas e cômodos esquecidos.

Entre aqueles que já leram o romance, muitos me questionam sobre a forma e sobre como tantos temas foram combinados em um livro tão breve.

A forma não foi uma escolha planejada. Na verdade, foi apenas a única forma que o livro tomou, desde as suas primeiras linhas. Talvez tenha sido escolha dele próprio vir ao mundo assim, ágil, sem pontos finais, numa poética fragmentada, como é também a experiência de sua protagonista. O texto tem dessas coisas, entidade viva, com suas próprias exigências.

Resumir É quase como voltar pra casa não é tarefa fácil, nem mesmo para mim. Ainda estou descobrindo como apresentá-lo. Ele não foi uma ideia que guardei por anos numa gaveta: ele sim se apresentou a mim, me convocou, assim que fui convidada a participar de uma residência literária em meio à pandemia. Escrevi a maior parte dele em apenas um ano.

Bom, posso dizer que é um romance cheio de humor, sexo, luto, trauma, espiritualidade, conflitos familiares, algo de sobrenatural. E se me perguntarem o porquê dessa combinação, só posso dizer que também não sei como poderia ter escrito algo diferente.

Escrever tem algo de risco. Não como um salto no abismo. O salto, movimento único, um supetão, uma respirada funda e o gesto de se abandonar. Salto no abismo é coisa fácil e indolor.

Escrever talvez seja mais como dançar com o abismo. Entregar-se aos seus passos, deixar que te guie, o corpo mole e devoto, o desejo, a dúvida, o baile todo. Insistir na dança com o que não existe até que, antes que te engula, exista alguma coisa.

Em É quase como voltar pra casa, eu assumi o risco de escrever uma personagem complexa e sedutora, que não dá um passo de dança sequer, mas tropeça em suas próprias memórias e assombros. Cujo corpo é apenas uma pista, quase não se mostra, mal sabemos dele.

E talvez seja aí mesmo que resida sua força e sua queda.

 

Conheça Janaina Abílio

JANAINA ABÍLIO nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. É formada em português e literatura na Unirio e pós-graduanda em neurociências, psicologia positiva e mindfulness pela PUC-PR. É autora de e fica um gosto de cica na boca, publicado em 2019 pela Garupa Edições, e de É quase como voltar pra casa, seu primeiro romance, que ganha nova edição pela Companhia das Letras em 2026.

 

Conheça É quase como voltar pra casa

Na pausa de uma transa com Wilson, Ava se depara pela primeira vez com o fantasma de sua namorada, Elaine. Tanto o corpo de Wilson, que a aguarda na cama, como o espectro de Elaine no banheiro são tingidos pela cor do pai de Ava. Ele um pouco mais claro, ela um pouco mais escura. O pai é da cor de um borrão -- e é assim há anos, desde que se despediu de Ava na porta da escola e nunca mais foi visto.

O trauma dessa ausência sem explicações permeia a narrativa de Ava; um fluxo de consciência que embaralha passado e presente e se fragmenta no ritmo da raiva da protagonista. Dessa raiva, transbordam a ironia e a acidez de uma jovem que busca prazer em meio à dor e respostas onde parece não haver nenhuma.

Guiada pelo espírito de Elaine e pelo corpo de Wilson, Ava tenta se aproximar da mãe ao mesmo tempo que a afasta, dá aulas de filosofia no ensino médio e faz terapia. As elaborações de sua narrativa se assemelham, em algum grau, às da análise: a busca pelo pai, o luto pela morte súbita da namorada, a separação da mãe, a dinâmica racial e o desejo sexual que moldam uma história de lacunas e não ditos.

Escrito durante a segunda residência literária organizada pelo Bando Editorial Favelofágico, de Manguinhos, no Rio de Janeiro, É quase como voltar pra casa é um romance avassalador sobre o peso das ausências que carregamos no dia a dia.

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