Para falar sobre horror negro é preciso falar sobre masculinidades negras: um olhar sobre “O Dono e o Mal”, por Dayhara Martins

08/07/2026

Existe um provérbio na língua iorubá que diz “Bí abá so òkò sójà ará ilé eni ní bá”, em tradução direta quer dizer mais ou menos “quem atirar uma pedra no mercado, atingirá um parente seu”. A síntese da frase evidencia que você deve estar atento ao modo como se comporta e suas atitudes, pois isso em algum momento pode se voltar para você ou alguém muito próximo. 

Enquanto lia O Dono e o Mal, obra recém-lançada de Bruno Ribeiro pela Editora Alfaguara, me peguei pensando neste provérbio e nos modos como o horror negro evidencia essa questão de formas muito objetivas.

A obra apresenta a família Farias de Assumpção, encabeçada por Batista, um homem negro e de origem humilde, que na busca por melhores condições migra da Paraíba para o Amazonas e acaba conhecendo Iolanda, mas entre um processo doloroso que evidencia a ruína local, Batista acaba envolvido em um projeto com agentes da ditadura militar e precisa recomeçar. É então com Soledades de Silva Farias com quem Batista se casa tempos depois, os filhos desse relacionamento tomam rumos muito próprios, perpassados pelo ódio, pela construção idealizada da identidade negra e principalmente a perpetuação dos traumas que atravessam gerações. Esses traumas são representados pela figura de O Inglês, que brinca com a ideia do que é real e o que é imaginário para representar que o colonialismo não é um passado distante, que parece ter se perdido em meio aos séculos, ele é o que é e continuará sendo. É então que o horror negro passa a fazer sentido na narrativa.

Como cita Tananarive Due no documentário Horror Noire “história negra é horror negro”. Em uma breve explicação de que pessoas negras não precisam necessariamente da concepção do fantástico, de fantasmas, demônios ou vampiros para que nossas histórias sejam classificadas enquanto narrativas de horror. O cotidiano perpassado pelo racismo é por si só o maior horror que podemos viver. De modo que ao escrever sobre a tragédia e ruína de duas famílias, Bruno está evidenciando o racismo em todas as suas esferas e consequentemente o horror negro enquanto uma lupa possível para analisar essas representações.

 

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A masculinidade como ponto central

Apesar de ser uma narrativa que dá foco e humaniza todos os personagens, é inevitável não perceber como Bruno Ribeiro usa das mais de 300 páginas da obra para debater sobre um assunto que ainda nos é tão caro: masculinidades negras. Tanto Batista quanto seus filhos Genival e Graciliano são afetados pela construção imaginária do que é ser um homem negro.

Eles são propositalmente produtos da raiva, mesmo que momentaneamente. São homens cansados de perseguir seus próprios sonhos, desacreditados das próprias escolhas e dos próprios caminhos. Já para nós leitores, eles são homens que claramente nunca falaram abertamente sobre a concepção do trauma, da pobreza ou das feridas estruturais, e que de certo modo demonstram essa ausência através da violência.

Este talvez seja um dos maiores retratos que o horror pode pintar quando pensamos em corpos historicamente marginalizados. Enquanto histórias célebres precisam de vampiros em cidades tradicionais que mudam o curso da vida dos habitantes, ou palhaços que são a própria representação do mal, o horror negro apresenta o cotidiano como o maior produtor do medo.

Jordan Peele fala sobre isso ao citar o processo de criar o “Lugar Afundado” no filme Corra!, onde através de uma espécie de hipnose e pré-cirurgia, pessoas negras eram destituídas da própria identidade e do próprio desejo, para se tornarem apenas telespectadores do outro. Uma espécie de paralisação da vida negra, em prol do avanço da vida branca. Apesar de Peele se valer do fantástico para apresentar essa metáfora, o que nos causa arrepios é perceber que os detalhes mais assustadores não são tão distantes da nossa realidade.

No caso de O Dono e o Mal a encruzilhada parece ser mais ou menos a mesma. Bruno apresenta O Inglês como uma hipérbole da colonização, mas também como um modo de apresentar as estruturas sociais como um produto coletivo que nasce de vias individuais, ou seja, a família Farias de Assumpção não é apenas uma família que sofre as consequências históricas do racismo, ela é também, a materialização da construção de monstruosidade em relação ao corpo negro, e a resposta indigesta quando mencionam que para essa situação não há culpa individual, ela é sempre coletiva e de uma sociedade que falhou. Aqui o individuo tem nome, O Inglês, ele não oferece espaço para fala, não humaniza esses personagens, e parece não se importar com as consequências das ações que corrobora.

No entanto, conforme o provérbio iorubá, não se deve atirar pedras no mercado sem esperar que você ou aqueles que você ama não sejam afetados. Neste caso, a família Lucena Neumann parece entender o que isso quer dizer. Numa relação que acontece quase por simbiose, as duas famílias estabelecem uma conexão que não deixa de ser problemática e baseada em relações de poder, e que evidencia como famílias privilegiadas também são afetadas – mesmo que para o bem – quando o assunto são tensões raciais.

Um coro grego eletrizante como uma rajada de anfetamina cantarolava pelos buracos do firmamento: a família Lucena Neumann não será mais a mesma, a família Farias de Assumpção nunca mais será a mesma.
Toda jornada de heróis começa com uma faísca. Esta começou antes que esses amantes na moto rosa derrapassem na curva mal-intencionada às três da madrugada.

A relação dos Lucena Neumann com os Farias de Assumpção acontece devido à gravidez de Valéria, a jovem negra que engravidou do rapaz de boas condições financeiras. Para a branquitude, este é o verdadeiro filme de horror, para os Faria de Assumpção, este é o pior dos monstros.

Imagine como fica um homem negro vendo sua filha ser desacreditada devido à gravidez inesperada, ao mesmo tempo que seus irmãos, igualmente negros, precisam se manter protetores em relação a própria irmã. A masculinidade a ser debatida é deixada de lado, o foco precisa ser outro, é preciso garantir a existência dos seus, garantir a identidade daqueles que ainda irão nascer, e para isso, é preciso soterrar o que é ser um corpo negro no mundo.

Em síntese, para falar sobre horror negro é preciso antes de tudo, olhar para homens negros e suas histórias com um toque mais humano e compreensível, a partir disso, uma fina camada começa a ser dissipada, e o velho provérbio iorubá começa a ser atendido através de uma outra ótica: “ninguém sai ileso quando se atira pedras no mercado, nem você mesmo”. 

 

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Conheça Bruno Ribeiro

Bruno Ribeiro é escritor, tradutor e roteirista. Mestre em escrita criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero, em Buenos Aires, é autor de Glitter (Moinhos, 2019), Como usar um pesadelo (Caos e Letras, 2020), Porco de raça (Darkside, 2021) e Era apenas um presente para o meu irmão (Todavia, 2023), entre outros. Recebeu diversos prêmios no Brasil e já foi traduzido para o inglês, o espanhol e o francês.

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