Ava deseja que seu pai volte para casa. Que sua própria casa, assombrada pelo espírito da namorada, deixe de ser um amontoado de memórias e afetos interrompidos, e possa, enfim, tornar-se um lar. Um lugar onde seja possível descansar, gozar do próprio corpo e encontrar, em si, alguma forma de integridade. Um lugar para onde seja possível voltar.
Na pausa de uma transa com Wilson, Ava se depara pela primeira vez com o fantasma de sua namorada, Elaine. Tanto o corpo de Wilson, que a aguarda na cama, como o espectro de Elaine no banheiro são tingidos pela cor do pai de Ava. Ele um pouco mais claro, ela um pouco mais escura. O pai é da cor de um borrão -- e é assim há anos, desde que se despediu de Ava na porta da escola e nunca mais foi visto.
O trauma dessa ausência sem explicações permeia a narrativa de Ava; um fluxo de consciência que embaralha passado e presente e se fragmenta no ritmo da raiva da protagonista. Dessa raiva, transbordam a ironia e a acidez de uma jovem que busca prazer em meio à dor e respostas onde parece não haver nenhuma.
Guiada pelo espírito de Elaine e pelo corpo de Wilson, Ava tenta se aproximar da mãe ao mesmo tempo que a afasta, dá aulas de filosofia no ensino médio e faz terapia. As elaborações de sua narrativa se assemelham, em algum grau, às da análise: a busca pelo pai, o luto pela morte súbita da namorada, a separação da mãe, a dinâmica racial e o desejo sexual que moldam uma história de lacunas e não ditos.
Escrito durante a segunda residência literária organizada pelo Bando Editorial Favelofágico, de Manguinhos, no Rio de Janeiro, É quase como voltar pra casa é um romance avassalador sobre o peso das ausências que carregamos no dia a dia.
"Com senso de humor e erotismo, Janaina Abilio cria um romance em versos sobre amores e lutos. Enquanto os traumas de Ava a assombram, o fantasma de sua namorada a recorda de como ser feliz passa por ser fiel a si mesma. Entre o prazer e a saudade, a jovem descobre que não há como se proteger da incerteza. Viver é encarar inúmeras mudanças." -- Stephanie Borges