A criança e o exercício de descoberta do mundo
O desejo de proteger os filhos pode criar a ilusão de que os pais podem controlar as experiências que as as crianças inevitavelmente vão vivenciar na descoberta do mundo
Ver que a literatura infantil tem ganhado cada vez mais espaço - nas livrarias, na mídia, nas artes e, principalmente, nas famílias e escolas - deixa a todos nós, que trabalhamos com livros, cheios de esperança.
Ver que os livros pensados para crianças, e sobretudo os livros ilustrados, têm sido cada vez mais estudados e investigados como objetos complexos, que proporcionam diferentes experiências estéticas e linguísticas, nos deixa ainda mais animados com as possibilidades que a literatura oferece.
Agora, ver livros dos nossos selos infantis reconhecidos pela qualidade e marcando gerações entre tantas obras incríveis que ganham as prateleiras mundo afora, nos deixa com mais vontade ainda de fazer o que sabemos melhor: contar histórias.
O The Atlantic, uma respeitada revista literária americana dedicada à difusão da cultura, publicou uma lista com os 65 livros fundamentais da literatura infantil - e há cinco obras entre elas que foram publicadas pelos selos infantis da Companhia das Letras. Para a seleção, a revista determinou como escopo desde as obras direcionadas para leitores que precisam da mediação até a transição para obras ilustradas, que permitem uma leitura autônoma, mas sem capítulos longos, o que permite compartilhar a experiência de leitura. De acordo com a publicação, não há necessariamente um fio que une todas as obras eleitas, mas “cada uma representa um feito artístico, vocal ou complexo que consideramos excepcional. São do tipo de livro que será estimado por muito tempo no futuro, desgastado pelo uso e, talvez, precisará ser substituído mais de uma vez. Por isso, eles parecem ser fundamentais.”

A obra mais emblemática de um dos autores infantis que melhor captou a essência das crianças fala de uma jornada interna. Tudo começa quando Max é mandando para a cama sem jantar depois de aprontar um montão de travessuras. Mas o quarto dele é tomado por uma densa floresta e ele se transporta para uma terra selvagem: a terra onde vivem os monstros. E Max não tem medo deles.
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A lagarta comilona que se tornou um ícone referenciado por muitos autores infantis - como Renato Moriconi, em Uma planta faminta (Companhia das Letrinhas, 2021) - comeu tanto, tanto que teve uma baita dor de barriga! Um clássico que ganhou uma edição cartonada caprichada, com formato maior e abas que podem ser manuseadas confortavelmente por mãozinhas pequenas.
Uma história interativa em que os personagens, o elefante Geraldo e a Porquinha, conversam diretamente com os leitores. Em um uso divertido da metalinguagem, os dois ficam muito felizes ao descobrirem que estão sendo lidos. Mas e quando a história acabar?
As ilustrações feitas com colagens de papéis e tecidos materializam a aventura de Peter, um menino que acorda em uma manhã de inverno e se depara com a vizinhança coberta de neve. Desde sua publicação, em 1962, essa história é reconhecida por quebrar paradigmas colocando um menino negro como protagonista em um ambiente urbano e diverso, o que infelizmente era raríssimo à época.
São cinco histórias protagonizadas por dois melhores amigos: o Sapo e a Rã. Neste clássico dos Estados Unidos, que fala essencialmente sobre amizade, o leitor pode se identificar com a forma como os protagonistas se relacionam. Eles se cuidam, como quando o Sapo costura todos os botões do paletó da Rã, se conhecem bem e têm intimidade para fazer o que só verdadeiros amigos fazem - até enganar o outro para o próprio bem dele!
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