Um ano sem celular nas escolas: o que mudou?

06/02/2026

No dia 13 de janeiro de 2026, a lei nº 15.100/2025 que proíbe o uso de celular nas escolas de todo o Brasil, completou um ano. A medida vai na mesma direção das regras já em vigor em outros países como França, Espanha, Grécia, México e, mais recentemente, a Coreia do Sul. 

A ideia de limitar o uso dos aparelhos celulares entre crianças e jovens se apoia em diversas pesquisas que associam o uso de telas a problemas na saúde física e mental, além de questões comportamentais. Os prejuízos associados ao uso excessivo de telas vão desde o aumento de miopia entre crianças e jovens até maiores dificuldades de atenção e concentração, aumento da obesidade, assim como de casos de ansiedade e depressão. Isso sem falar dos perigos do acesso não supervisionado à internet, especialmente no que diz respeito ao uso de redes sociais.

 Detetive Chapeuzinho e o mistério da sombra digital

Ilustração do livro Detetive Chapeuzinho e o mistério da sombra digital (Companhia das Letrinhas, 2024)

Vale lembrar que a medida não proíbe completamente o uso dos dispositivos nas escolas, que ainda podem ser utilizados para fins pedagógicos. O Ministério da Educação (MEC) anunciou que pretende fazer uma pesquisa nacional, ainda neste primeiro semestre de 2026, para entender “como a lei vem sendo implementada nos diferentes sistemas de ensino e quais efeitos iniciais tem produzido no cotidiano escolar.” 

Mas, afinal, o que a proibição do uso de celulares mundou no dia a dia das escolas? Conversamos com professores e coordenadores pedagógicos para entender melhor.


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A recepção e a adaptação à nova lei

Entre a aprovação da lei e sua adoção na prática, houve um caminho próprio que cada escola precisou percorrer. Para Bruno Rafael Santanna, coordenador pedagógico e professor do Ensino Médio de uma escola particular de Campinas (SP), ainda que os professores de sua instituição estivessem já há um tempo a par das discussões, acompanhando os debates que permearam a elaboração da lei, uma vez que ela foi aprovada, novas questões surgiram. Será que os alunos ficariam ansiosos sem os celulares? E aqueles que fazem uso do aparelho por motivos que vão além da aprendizagem - como estudantes diabéticos que precisam monitorar a glicemia? E na prática: os alunos não poderiam sequer levar o celular à escola? Ou levariam e os aparelhos ficariam guardados? Como isso funcionaria? Apesar das dúvidas dos educadores, o coordenador conta que, por parte dos estudantes, houve bem menos resistência do que se esperava. “É claro que houve um episódio ou outro de um estudantes querendo usar o celular no banheiro, por exemplo. Mas situações que estávamos acostumados a lidar, como alunos acompanhando jogos pelo celular, como nos dias de Champions League, postando nas redes sociais durante as aulas ou até tirando foto da lousa para não precisar escrever nada, isso não acontece mais”, conta. 

Mariane Gennari, professora da rede pública de São Paulo, conta que a proibição do uso de celulares não foi uma novidade na instituição em que ela leciona. “Na escola que trabalho, a proibição foi bem-vinda pelos educadores pois confirmou um desejo que já se manifestava. Por mais que existisse um combinado de não uso do celular, era difícil fazer um controle. A lei deu respaldo para nossas escolhas pedagógicas”, explica. Para a educadora, a ausência do celular em sala de aula melhorou a atenção dos alunos, que ficaram “menos distraídos, menos ansiosos e mais concentrados”.

A professora Luzia Pinheiro, que leciona para o 6º e 7º anos do Ensino Fundamental em um colégio de elite de Belém (PA), também percebeu essa mudança em seus alunos, que ficaram mais participativos. “Durante as aulas percebo que as crianças ficam mais concentradas. Agora o problema é conversa porque elas têm interagido mais. Eu ainda as escuto conversando sobre jogos online, porque é algo que elas gostam bastante”, conta. A medida chegou à escola em que Luzia leciona em um contexto em que um trabalho pedagógico com famílias e estudantes sobre o uso de celulares e telas já estava acontecendo. “A escola fez campanhas com os pais sobre o uso dos celulares, com a participação de uma psicóloga da escola, mesmo antes da lei entrar em vigor. Então, quando a medida foi aprovada, foi um alento”, conta. 

A irmã de Luzia, Cinthia Pinheiro, que também leciona em Belém, mas em uma escola da rede pública para estudantes do Fundamental 2, teve uma experiência diferente. Mesmo quando a medida entrou em vigor, suspender o uso do celular não se mostrou uma tarefa tão fácil. “A gente ainda precisa pedir para guardar os celulares algumas vezes. E alguns professores ainda permitem que os estudantes usem o aparelho para pesquisar alguma coisa”, conta.

Já no Colégio São Luis, de São Paulo (capital), a resistência entre os alunos foi pontual, como conta Fernanda Franco, orientadora educacional do instituição: “Grandes resistências não chegaram a ser colocadas publicamente pelos estudantes, que, em sua enorme maioria, seguem as regras”, explica. A estrutura do colégio, que conta com computadores individuais como parte do material didático, também ajudou a suprir a exigência de tecnologias digitais em atividades específicas, dispensando o uso do aparelhos, que ficam trancados em armários nas salas de aula durante o dia todo.


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Menos telas, menos distração, mais interação

Ilustração do livro Detetive Chapeuzinho e o mistério da sombra digital (Companhia das Letrinhas, 2024)

Ilustração do livro Detetive Chapeuzinho e o mistério da sombra digital (Companhia das Letrinhas, 2024)

 

Pelos relatos dos professores ouvidos nesta reportagem, a impressão é que sem a barreira das telas, um certo senso coletivo pareceu ressurgir, restaurando um contato mais direto e mais próximo entre os estudantes - tanto nas interações em sala de aula, como nos momentos de descanso. “A diferença está principalmente na forma como os alunos  interagem nos grupos, já que antes essas conversas eram muitas vezes mediadas pela tecnologia, como assistir a vídeos curtos juntos ou tirar fotos”, observa Fernanda. 

Para Bruno, a mudança também se tornou mais evidente nos intervalos. Se antes, com os celulares, muitos estudantes ficavam mais isolados, ouvindo música, jogando ou nas redes sociais, hoje o cenário é outro. “É nítido que os estudantes hoje passam a maior parte do tempo fazendo esporte: futebol, vôlei, pingue-pongue. Tem gente que fica sentado em grupo no gramado. Eles têm usado mais esses espaços e têm ficado menos sozinhos. Eles passaram a conviver mais. De alguma forma, alguns pareciam se bastar com os celulares e agora convivem mais em grupo”, reflete. Vale destacar como a boa estrutura do colégio, que conta com campo, quadra e outros bons espaços de convivência também favorece essas interações. 

No colégio em que Luzia leciona, que também tem uma realidade privilegiada, para ajudar os estudantes a se adaptarem a essa nova realidade, a escola disponibilizou na hora do intervalo jogos de tabuleiros, dominó, pingue-pongue e instalou redes de vôlei. E Luzia tem notado que as crianças têm circulado pelas sala de aula com mais livros literários. “Eles estão lendo mais, mas nesta escola as crianças já são leitoras. Elas têm levado mais livros para sala que não são da escola”.

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Entre professores, o saldo é positivo

“Acho que essa medida é fundamental e está ligada a questões de saúde, e de proteção do desenvolvimento e dos direitos de aprendizagem dos estudantes, que não têm muito controle em relação ao uso desse instrumento”, explica Mariane. Ela conta que sempre faz uma alusão ao cigarro, que assim como o celular, vicia e pode trazer uma série de prejuízos. “Se a gente não permite o uso do cigarro dentro da escola, por que permitiríamos o celular? Especialmente diante da dificuldade de saber o que os estudantes acessam, com quem eles falam”, reflete. 

Fernanda concorda: “A medida é positiva para todos. Não impediu os alunos de viverem o tempo atual, uma vez que eless seguem trabalhando com tecnologias digitais por meio do computador e amparados por um programa de educação midiática, e, ao mesmo, tempo, auxilia na formação dos jovens em um modelo mais próximo do natural, com a constituição da infância e da adolescência dentro dos parâmetros sociais que entendemos como saudáveis”. 

"Sem consultas à internet, sem inteligência artificial, sem tirar foto da lousa, acho que o jovem aprende no tempo e na maneira de aprender, como os objetos de aprendizagem foram pensados para ser. Não é que não se utilize tecnologia ou não se explore a inteligência artificial. Mas isso é feito de maneira pensada, de maneira intencional, nos laboratórios de informática, com supervisão dos professores, de um modo crítico", resume Bruno.

Para as famílias, vale lembrar que, para além do que acontece na escola, o controle da exposição às telas também deve ser pensado em casa. Em 2024, a Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou as recomendações sobre o uso de telas para crianças e adolescentes, estabelecendo:

 - De zero a dois anos de idade: sem telas (mesmo que passivamente);

- De dois a cinco anos de idade: uma hora por dia, com supervisão dos pais ou responsáveis;

- De seis a 10 anos: uma a duas horas por dia, no máximo, e sempre com supervisão;

- Adolescentes entre 11 e 18 anos: de duas a três horas por dia, sem deixar “virar a noite” na frente das telas. 

 

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