‘A dança das palavras’ e os transtornos de aprendizagem: obra aborda dislexia com criatividade e leveza

09/02/2026

Os Transtornos Específicos de Aprendizagem (TEAp) são Transtornos de Neurodesenvolvimento e afetam o sistema nervoso e o processamento das informações. Eles estão relacionados a dificuldades com escrita (disgrafia ou disortografia), cálculos matemáticos (discalculia) e leitura (dislexia), a mais comum. É sobre ela a obra A dança das palavras (Brinque-book, 2025), da inglesa Kate Rolfe, traduzida por Sofia Mariutti. No livro, a autora e ilustradora brinca com as letras e assume seu próprio transtorno com a leitura, ensinando que é possível lidar com a dislexia e escrever sua própria história. “Sou disléxica e adoro letras”, ela escreve ao final do livro. “Brincar com as letras ainda é uma das coisas que mais gosto de fazer.”

 

A dança das palavras

Como ler as histórias se as palavras não param de dançar? Com delicadeza, o livro 'A dança das palavras' (Brinque-Book, 2025) aborda os Transtornos Específicos de Aprendizagem (TEAp) 


A ocorrência dos TEAp varia de 5% a 15% entre crianças em idade escolar, de acordo com a American Psichiatric Association, e é caracterizada por dificuldade persistente no aprendizado, em várias áreas do conhecimento. As causas podem estar relacionadas à genética, fatores ambientais e disfunções neurológicas. A falta de diagnóstico ou acompanhamento adequado na infância agravam problemas na vida profissional. 

Os sinais podem aparecer antes mesmo de a criança aprende a ler, como dificuldade para desenhar ou pintar, reconhecer sons, aprender canções, jogos de palavras ou quebra-cabeças. Pode haver problemas com rimas, segmentação de palavras, noções espaciais ou reconhecimento de padrões. Mais tarde, com gramática, precisão, velocidade e fluência da leitura, dificuldade de se expressar por escrito, na fluência de cálculo e raciocínio. 

Características do transtorno podem ser observadas no momento da lição de casa, na organização dos materiais escolares, nas notícias que a criança traz da escola e em como lida com elas. Ao perceber dificuldades frequentes, é preciso agendar uma conversa com os professores. “Para diagnosticar um Transtorno de Aprendizagem é preciso excluir a hipótese de deficiência intelectual”, explica a neuropsicóloga Renata Truffa Tarabay, especialista em Neuroeducação. Ela lembra que o profissional especialista em aprendizagem é o psicopedagogo, entretanto, há outros habilitados para avaliação, como neuropsicólogo, neuropediatra e psiquiatra.

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O segundo passo


Após o diagnóstico, o aluno tem direito à inclusão garantido por lei, por meio do Plano Educacional Individualizado (PEI), com adaptações de atividades, lições de casa e provas. “É uma trilha de aprendizagem do aluno, um documento que se altera a partir de seu desenvolvimento. Ele precisa ter a participação da família, de profissionais e da própria criança, pois ela pode trazer soluções simples e eficazes, sendo fundamental que o educador aponte para a própria criança a sua evolução. Assim, com respaldo emocional, sua autoestima e motivação se desenvolvem”, diz Renata. 

O transtorno de aprendizagem é diferente da dificuldade em aprender, sendo esta momentânea e muitas vezes relacionada a questões emocionais ou métodos pedagógicos. Já o transtorno acompanha a pessoa durante toda vida e, se não tratado, prejudica a saúde mental.  “A criança sente-se diferente de seus pares, mas não conhece o motivo e passa a considerar-se incapaz, pensa que não é inteligente, que todos aprendem e ela não. Conclui, erroneamente, que ela é o problema. A autoestima é profundamente impactada”, completa a especialista. 

Por estas e outras razões, os TEAp costumam interferir também na autopercepção, autoconfiança e senso de identidade. “A criança, ao vivenciar repetidas experiências de frustração no contexto escolar, pode começar a se perceber como incapaz ou inferior aos colegas, mesmo tendo potencial intelectual preservado. Isso pode gerar sofrimento emocional importante, desmotivação, evitação das atividades escolares e até alterações de comportamento”, reforça Gabriela Weinert Moraes, neuropsicóloga do Hospital do Instituto de Neurologia e Cardiologia de Curitiba (INC). 

Ela enfatiza que nos transtornos específicos de aprendizagem a criança apresenta inteligência preservada. Já quando há deficiência intelectual, as dificuldades de aprendizagem não estão restritas a uma área específica, como leitura, escrita ou matemática, mas envolvem um comprometimento global do funcionamento intelectual, o que afeta amplamente o aprendizado e a adaptação escolar, como é o caso do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Ambos impactam na atenção e na memorização, além da habilidade de planejar, organizar, executar, resolver problemas e controlar impulsos.

“Por isso, é essencial que as dificuldades de aprendizagem sejam avaliadas de forma ampla e cuidadosa, considerando diferentes possibilidades diagnósticas. Um diagnóstico bem-feito permite compreender a origem das dificuldades e direcionar intervenções adequadas, favorecendo o desenvolvimento acadêmico, emocional e social da criança”, diz Gabriela. 

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Acolhimento em primeiro lugar

https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786556541525/a-danca-das-palavras?utm_source=blog-da-letrinhas&utm_medium=blog-letrinhas&utm_campaign=a-danca-das-palavras&utm_id=A-danca-das-palavras-e-os-transtornos-de-aprendizagem-obra-aborda-dislexia-com-criatividade-e-leveza

Ilustração de 'A dança das palavras' (Brinque-Book, 2025)


As profissionais apontam ainda a importância de não culpar a criança, pois notas baixas nem sempre estão relacionadas à motivação ou dedicação, mas a um modo diferente de processamento das informações. Não é preguiça. “Exigências excessivas podem aumentar o sofrimento emocional, favorecendo o surgimento de ansiedade, frustração, tristeza e tentativas de evitar atividades escolares, não por preguiça, mas por medo de errar, de se sentir incapaz ou pela reação dos adultos”, observa Gabriela.

Aprender, afirma ela, não envolve apenas habilidades cognitivas; envolve motivação, confiança e uma relação positiva com o conhecimento. “Quando a criança compreende que suas dificuldades não estão relacionadas à falta de inteligência ou de esforço, mas a um modo diferente de funcionamento do cérebro, há um alívio significativo.”

Estimular as habilidades infantis de forma lúdica, por meio de atividades extracurriculares, como esportes, dança, teatro, música e desenho, também ajuda a fortalecer a autoestima e manter a motivação. “O melhor modo da família ajudar é unir o estímulo emocional ao cognitivo”, sugere Renata. “Organize uma rotina com a criança, não só de estudos, uma rotina diária que traga segurança e previsibilidade; cuide da higiene do sono; auxilie na lição de casa sem dar respostas, mas fazendo perguntas que possam instigar o pensamento. Ajude-a a entender que o erro é caminho para aprender.”

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O livro literário como aconchego e encorajamento


Entre os estímulos positivos, os livros ocupam espaço especial. “É um recurso narrativo de apoio importante para que a criança compreenda, faça perguntas e elabore a situação que está vivendo. A partir de uma história, a criança consegue trazer perguntas, falar sobre o que sente e acessar temas difíceis de forma segura”, percebe Gabriela. 

A ilustração é outra ferramenta preciosa para o estímulo da aprendizagem, especialmente para alunos com transtornos. “É uma outra linguagem, não acadêmica, mas que comunica tanto quanto. Ela não pede um padrão, não tem uma regra, como a escrita e a numeração. É a possibilidade de uma expressão livre, sem medo de errar, que colabora com o enfrentamento das dificuldades”, conclui Renata. 

Quando observamos o modo que Kate Rolfe criou a narrativa de A Dança das Palavras notamos estas particularidades. A narrativa visual desde a guarda-capa do livro já exibe crianças de modo livre – corporalmente – entre letras gigantes, apontando uma metáfora da exploração, descoberta, domínio. Quando a criança protagonista pega o livro, pelo texto e pela imagem podemos nos colocar no lugar dela, sentir como a leitura pode ser um desafio. A angústia está presente, mas uma alternativa se sobrepõe aos olhos:

Um mundo onde tudo pode acontecer! 

Onde ideias são sementes que posso plantar. 


Letra a letra, encontro meu caminho.

Ponho as palavras para dançar, balançar...  até que elas chegam ao seu lugar.


Definitivamente, não precisa ser só sofrimento: a educação e a compaixão têm que andar juntas! 

(Texto: Mauren Luc)

 

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