Imaginação x realidade: há limites para o faz de conta?
Nem sempre as fronteiras entre realidade e ficção são claras, especialmente na literatura. Como ajudar as crianças a entender o que é concreto e o que é faz de conta sem perder a imaginação?
Quando a gente vê a capa escura com alguns rasgos, uns olhinhos não identificáveis, cores, uns dentes (?) e outros pedaços de figuras, a vontade é montar tudo na mente, juntar com o título A fuga (Companhia das Letrinhas, 2025) e descobrir do que se trata o livro.
O que será que esconde uma floresta cheia de musgos, sombras e plantas esquisitas? A fuga (Companhia das Letrinhas, 2026) nos convida a descobrir
Mas não é possível.
As autoras Blandina Franco (da escrita) e Raquel Matsushita (imagens e design) não querem facilitar nada para nós. A gente vai entrando no livro e tem mais um monstro (?) embaixo, vira tem outro em cima e uma árvore aparece no fronstipício.
“Imagina uma floresta cheia de árvores e flores e musgos e sombras e plantas esquisitas”, diz o texto enquanto, na imagem, em preto e branco vemos plantas, sim, mas vemos um relógio, uma luminária, cortina... Conforme vamos folheando, uns bichos estranhos surgem mas dentro deles parece que tem algo bem conhecido! E o texto e as imagens vão convidando a gente a imaginar cada vez mais coisas ao mesmo tempo em que estamos vendo outras! Sim: um livro cheio de palavras e ilustrações mas que nos carrega de argumento para ver o que não se vê, pelo menos não a princípio.
O Blog Letrinhas conversou com as autoras que são amigas e não economizaram na diversão no fazer este livro que acaba de chegar às prateleiras. Confira alguns trechos da conversa e encarem esta “fuga” da realidade (um pouquinho por dia faz um bem danado!).
Blandina Franco: (risos). Então vamos bem do começo: foi quando a Raquel foi para a agência da Lúcia Riff (agência que representa nomes da literatura brasileira no exterior). E a gente falou “nossa, agora nós estamos juntas! E aí a Raquel falou “então vamos fazer um livro juntas” (risos). Eu disse: “vamos pensar numa brincadeira para a gente fazer junto. E eu tinha esse texto, que é um texto que eu gosto bastante. Ele estava sempre ali, na fila.
Blandina Franco: Não. Eu até tinha pensado coisinhas. Mas mandei o texto para a Raquel e falei: olha, vê se você gosta e faz o que você quiser. Eu não vou te dizer o que está na minha cabeça. Se é uma coautoria, ela pode brincar do jeito que ela quiser. E ela fez o que ela quis.
Blandina Franco: Eu acho que o que é legal nesse texto é exatamente não dizer o que é que está acontecendo. É um livro sobre imaginação, para você imaginar as coisas. O que ela imaginou até mudou o final da história, né, Raquel? Ela imaginou toda essa coisa de ser uma festa, das fantasias das crianças.
(spoiler? Me perdoem!!)
Blandina: Ela me xingou. (risos)
Raquel Matsushita: (risos) Ela me mandou no Word. Eu sempre recebo os livros no Word, que é um jeito de receber muito desprovido de charme (risos), como diz uma amiga minha. Eu lia, relia, lia e relia. Eu li umas dez vezes aquele texto e falava: o que ela está aprontando? Que monstro é esse? Porque eu achava que era um monstro. Quebrei minha cabeça, gente do céu! Liguei pra ela.
Blandina Franco: Brava.
Raquel Matsushita: Desisto. Qual é a pegadinha? Eu não sei que monstro é. E ela falou: “é o monstro que você quiser”. Aí que eu xinguei (risos), porque eu fiquei muitos dias quebrando a cabeça. Então meio que abriu uma porta. Eu estava numa coisa de achar que tinha alguma coisa escondida ali. O que tem escondido? É o que você quiser. É o que você pensar. Então, o que tem escondido é infinito, porque cada um vai pensar uma coisa. Já adoro a Blandina, adoro o humor dela, adoro os livros dela e então falei: Desculpe, Lollo, mas é óbvio que eu vou aceitar este texto! (Lollo é José Carlos Lollo, parceiro de Blandina na maior parte de seus livros, inclusive da série Pum!)
Raquel Matsushita: O ilustrador acaba sendo o primeiro leitor de um texto, porque é claro que se cai na mão de outro ilustrador, ele ia ter a leitura dele e ia fazer a proposta dele. No meu caso, eu pensei: vai ser muito legal se na imagem tiver uma narrativa paralela, que também esconde uma coisa, porque a Blandina propõe com as palavras. Ela esconde com as palavras.
Raquel Matsushita: Isso. Os cenários todos são em preto e branco, os personagens todos são em preto e branco, e eles estão escondidos numa fantasia que você vai percebendo, opa, tem uma criança aqui. A fantasia que chama, que está em primeiro plano. As crianças vão aparecendo como o cenário, num segundo plano. Esse livro é simplesmente uma tarde.
Raquel Matsushita: Por exemplo, o relógio. O relógio é quando começa a festa. Esse relógio aparece nos cenários de uma floresta que também se revela. Então, a sala, o banheiro...
Blandina: Tem uma floresta, mas tem um relógio.
Raquel Matsushita: Ah, eu me diverti muito fazendo. Porque a Blandina já propõe essa brincadeira. Quando ela fala o “bramido”, “crocito”, “grunhido”, fui pesquisar no dicionário. Que som é esse quem faz esse som, né? Então você também tem uma proposta de brincadeira com as palavras.
Raquel Matsushita: As fantasias têm muito a ver com a própria criança. Tem a menininha que está faltando um dente e aí a fantasia dela também falta o dente; a menininha que usa óculos, põe óculos na fantasia dela. Tem fantasia que você fala é um jacaré, é uma melancia! Tem outras que não é uma coisa... o que é aquilo?
Blandina: Eles é que estão brincando disso. Não existe um monstro ali, porque seria muito mais fácil a mãe estar de monstro, mas seria o lugar comum, né? Aí não tem imaginação. Eu acho que o jeito que a criança gosta, o único caminho para ela gostar de um livro é se a cabeça dela funcionar com aquilo, então ela tem que descobrir o que é que está ali.
Raquel Matsushita: Sim! Então tem a menina de patins, ela foi de patins para a festa. Só que cada personagem também criou um próprio personagem (a fantasia) e essa menina provavelmente é uma menina que gosta de cobra.
Repare na menina de patins... que provavelmente gosta de cobras!
Raquel Matsushita: A gente também brincou muito com o livro. Quando você abre a capa, a própria lombada é a estrutura da árvore!
Blandina: Vou obedecer! (risos)
Blandina: Porque a fantasia é fazer de conta que não são crianças, certo?
Raquel Matsushita: E tem também a flutuação do próprio texto, e ele te leva mesmo para um lugar. Na medida em que a história vai acontecendo, a própria autora do texto também vai viajando.
Blandina: Imaginação. É isso. Imaginação. Tem tudo o que é possível ter. Não tem estalactites de verdade, mas tem cabides. Pode qualquer coisa.
(texto: Cristiane Rogério)
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