Para ler e se sensibilizar: livros que abordam temas fraturantes
Histórias que abordam temas difíceis podem provocar reflexões profundas e conectar crianças e adultos a questões fazem parte do nosso tempo - e da essência humana
A morte é uma certeza para todos os vivos.
Mas o que sobrará de nós após a nossa partida?
E o que restou para nós daqueles que já partiram?
Como conservar a presença quando a ausência se impõe?
De formas diferentes, duas obras recém-lançadas pelos nossos selos infantis mostram como lidar com a ausência que fica depois da morte - e como honrar a memória dos que vieram antes de nós.
A primeira trata do tema com humor. Em A vovó da minha avó (Companhia das Letrinhas, 2026), do argentino Joaquín Camp, um menino sai em busca do tesouro que seus pais contaram estar escondido no quintal. Com a pá em mãos para desenterrar o mistério, ele se surpreende ao ver um braço esquelético surgir do buraco cavocado… Era a avó de sua avó! E juntos, os dois vão viver situações inusitadas – mas antes, a (tris?)avó pede um traje elegante ao (tri?)neto para ficar nos trinques. Confirmando o nonsense tão próprio das histórias de Camp, é uma história que causa riso e estranheza sem deixar de lado a sensibilidade que um encontro entre gerações como esse pode despertar.

Já em Nosso lago (Pequena Zahar, 2026), de Angie Kang com tradução de Fabrício Valério, dois irmãos se preparam para um mergulho em um dia quente. O mais velho salta no lago primeiro. Mas algo detém o mais novo… A altura? A água fria? A queda? Não. A questão é outra: falta alguém. Os meninos costumavam mergulhar no lago com o pai, que não mais está. Mas o encontro do corpo com as águas faz a presença do pai emergir vívida, com a força que carrega nossas melhores lembranças. E pode ficar difícil segurar a emoção.
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Já refletimos neste blog sobre como falar de morte com as crianças. Mas este texto não pretende se debruçar sobre a perda em si. Mas sobre a vida que precisa se refazer a partir dela. Viver o luto é conviver com uma falta permanente. É transformar presença em memória.
Para a psicóloga Damiana Angrimani, coordenadora do Instituto Luto Parental, o processo de luto é como uma cicatriz. “No começo, quando a gente faz um corte bem fundo, qualquer coisa que toca na ferida dói muito profundamente. Qualquer ventinho que bate incomoda. Conforme o tempo passa, a cicatriz vai se fechando e a pele nova vai protegendo a ferida aberta. A ferida não mais dói tanto. E cada vez vai doendo menos. Mas toda vez que a cicatriz fica enroscada em alguma coisa, como quando a gente vai trocar de roupa, a gente lembra de como foi que ela apareceu ali. E dói muito outra vez”, reflete. É por isso que quem vivencia o luto por alguém querido às vezes percebe uma ebulição de emoções agudas ao ter contato com vivências que façam lembrar dessa pessoa: uma música, um gosto, um lugar. E aí pode surgir uma dor enorme ou muita saudade ou muita tristeza, ou até muita alegria e riso quando lembramos de quem partiu. Foi o que aconteceu com o menino de Nosso lago, que de certa forma ficou paralisado pela experiência de estar ali, sem pai, fazendo algo que era tão deles.
Muitas vezes, pode até haver um esforço de evitar situações que nos façam lembrar de quem partiu, para não acionar o gatilho da dor. Atravessamos a rua para não passar em frente àquela padaria favorita, evitamos determinadas músicas, guardamos lembranças bem escondidas em uma caixa no fundo do armário. Mas, como explica Damiana, “o esforço para evitar a dor já nos faz lembrar desse alguém”.
E o luto não se faz só de tristeza, ainda que esse sentimento normalmente ocupe um lugar central, junto com a saudade. Há também outros sentimentos como alegria, raiva, ressentimento, culpa que podem coexistir no luto, desenhando um percurso não linear de altos e baixos. “Ambivalências e contradições são da natureza humana e integrá-las ao luto é parte importante de um trabalho complexo que não se resume apenas ao que valorizamos racionalmente”, explica o professor Luciano Bregalanti, psicanalista, doutor e Mestre em Psicologia (IPUSP) e autor do livro Luto e trauma: testemunhar a perda, sonhar a morte (Blucher, 2023).
A comparação entre luto e cicatriz é precisa para ilustrar como não há uma fórrmula para superar a perda porque a dor é inevitável, por mais que o tempo passe e o buraco pareça ter se fechado. Sim, o sofrimento dilacerante do começo e a incredulidade de ver que o mundo continua girando mesmo sem a pessoa que amamos uma hora passam. Mas isso não significa um tipo de superação. Para Luciano, elaborar o luto não significa apagar a dor nem esquecer quem morreu, mas transformar a relação que temos com essa ausência e com quem nos tornamos a partir dela. “Com o tempo, se esse processo encontra espaço para ser vivido e compartilhado, algo se desloca. A pessoa [que faleceu] passa a habitar de outra forma a vida psíquica: na memória, nas histórias contadas, nos gestos que herdamos dela. O luto, nesse sentido, não é o fim do vínculo, mas a lenta construção de uma nova forma de presença”.
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Um dos sentimentos mais comuns de quem vive o luto por alguém querido é o medo de esquecer. Esquecer a voz, o sorriso, o jeito como a pessoa arrumava a camisa ou passava batom, as comidas favoritas, as histórias que contava. Não queremos que aquele alguém se apague de nossos pensamentos e lembranças. E esse sentimento faz parte da nossa humanidade.
Por isso, especialmente para as crianças, as lembranças de quem já partiu ganham contornos por meio da narrativa familiar, das histórias e causos compartilhados por pessoas próximas sobre quem se foi. “Desde que respeitados o tempo e o espaço singulares, permitir a presença dos mortos ao contar histórias, olhar fotografias, lembrar situações vividas, falar espontaneamente da pessoa que morreu, tudo isso ajuda a criança a compreender que aquele vínculo continua fazendo parte da história da família”, afirma Luciano. E assim, a criança pode entender a importância que essa pessoa que partiu tinha dentro desse núcleo e a falta que é sentida de forma compartilhada.
Quando a família consegue dar um lugar simbólico a essa vida interrompida, ela permite que as crianças compreendam que aquele vínculo também faz parte da trama de sua própria história. A memória não depende apenas da convivência direta; ela também se constrói no que é transmitido entre as gerações”, Luciano Bregalanti, psicanalista
E isso também vale para pessoas que a criança sequer chegou a conhecer, mas que fazem parte da história dela e que podem despertar a curiosidade... Contar as histórias de nossos antepassados mesmo daqueles que nunca vimos - como nossos tataravôs, trisavôs e outros parentes distantes - , é o que faz com que eles permaneçam presentes, ainda que de uma outra forma, no círculo familiar. É como acontece no livro de Joaquín Camp: a criança cria seu laço com aquela pessoa que foi importante para aqueles que ela ama e desenvolve um sentimento de compaixão, e de certa curiosidade à memória.. A história de quem veio antes da criança também pertence a ela.
Mas e quando não há exatamente memórias para cultivar?
Atuando como psicóloga que lida com o luto perinatal, Damiana fala da dificuldade de se lidar com a morte de bebês como “um luto não reconhecido socialmente”. “Muitas vezes, o luto perinatal é tratado como se aquele bebê nem tivesse existido. Mas para aquela família, ele existiu como parte de uma construção de futuro, de sonhos. Existiu no imaginário dos irmãos”, reflete. Uma das estratégias que ela utiliza para lidar com a perda nesses casos, especialmente para os irmãos do bebê que partiu, é criar uma caixa de memórias, que ajuda a dar contorno a essa presença não vivenciada. “É uma alternativa interessante para quando não há memórias palpáveis”, explica. Trata-se de uma caixa mesmo, onde geralmente há um ursinho que vai para o bebê que partiu e outro ursinho que fica para a irmã ou o irmão. Nesta caixa, podem ser colocadas roupinhas do bebê, fotos, cartas. A ideia é que os irmãos possam ter acesso à caixa, fazer desenhos, colocar brinquedos, como um recurso para marcar a existência desse bebê.
Por sua experiência clínica, Damiana conta que muitas vezes são as crianças que ensinam aos pais a lidarem melhor com o luto, criando seus próprios rituais. “Tenho um paciente que perdeu duas irmãs ainda bebês. Ele criou um cantinho em casa, colocando roupinhas delas para eles ‘brincarem juntos’. Fez com a mãe uma historinha para contar como as irmãs estavam vivendo no céu. E para todo mundo que pergunta ele conta das irmãs”, conta. Essa naturalidade em tratar da partida torna toda a experiência mais leve para todos, especialmente em uma sociedade em que falar de morte ainda é tabu. Em que, muitas vezes, invocar a memória dos que partiram é até considerado algo mórbido. Porque falar em morte traz à tona nossos próprios medos e inseguranças sobre o que nos espera mais além. Mas as crianças não têm esse tipo de amarras.
Quanto mais os adultos permitem que as crianças se aproximem do tema da morte, participem dos rituais, como velório, enterro, cremação, e depois deixem a porta aberta para que a criança traga suas dúvidas ou histórias ou o que quer que seja, a gente abre caminho para essa elaboração e para a possibilidade de preservar memórias. Quando a gente não fala, não nomeia, esconde ou quando a criança fica constrangida em perguntar sobre quem se foi para os adultos, é aí que as memórias vão sendo apagadas”, Damiana Angrimani, psicóloga
Em A vovó da minha avó, depois que tataravó e tataraneto passaram pelas aventuras mais improváveis, desde desenterrar um mágico famoso até voar de avião e andar em uma motocicleta que ninguém sabe de onde surgiu, ela pede ao menino um último desejo antes de voltar para sua cova: tomar raspadinha de limão. Com gosto, ela se delicia com bebida, enquanto o menino vê o líquido escorrendo por todos as cavidades do esqueleto da anciã. Nesse ponto, o texto nos diz:
— Você honra os seus ancestrais! — disse a vovó da minha avó.
Eu achei que tinha visto lágrimas em seus olhos, mas talvez fosse apenas um resto de raspadinha escorrendo.
“Talvez possamos dizer que honrar nossos mortos tem menos a ver com permanecer presos à dor e mais com permitir que aquilo que recebemos deles continue circulando na vida”, reflete Luciano. Para ele, isso pode acontecer de muitas maneiras: nas histórias que contamos sobre quem se foi, nos valores que recebemos e transmitimos, nos pequenos gestos que repetimos das pessoas que já partiram sem perceber. “Em certo sentido, os mortos continuam vivendo nas marcas que deixaram em nós e na forma como essas marcas seguem sendo transmitidas”, reflete.
Morrer não precisa ser um fim, mas talvez um novo tipo de presença. Uma presença que permanece viva nas memórias, nos sentimentos que somos capazes de despertar e nas histórias que ultrapassam gerações. E talvez, enquanto estamos por aqui, nossa missão seja pensar e escrever as histórias que um dia - muito distante - outras pessoas contarão sobre nós.
(Texto: Naíma Saleh)
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