“A leitura se dá dentro do diálogo com quem a gente é” : conheça a educadora Fabiana Côrtes

30/03/2026

A educadora Fabiana Côrtes tem uma sólida formação  de reconhecimento acadêmico. É licenciada em Letras, doutora em Pedagogia da Diversidade Sociocultural pela Universidade Complutense de Madrid (UCM) e em Cidadania Global pela Universidade Fernando Pessoa (UFP), em Portugal. Ela se dedica à educação das relações étnico-raciais, com valorização da diversidade e formação de professores. Mas quando resgata sua caminhada profissional pela literatura é aos contadores e mestres populares a quem ela se refere primeiro. Isso porque Fabiana também - e principalmente - é mediadora e contadora de histórias. Ela diz que se conecta muito com a figura do griô nesse processo, “porque ele é todo embasado em referências afrocentradas, em referências da oralidade e das formas de ser, de ver e fazer que são próprias da diáspora africana e da nossa identidade afroindígena brasileira que é também caiçara”, conta. Fabiana é natural de Niterói (RJ), mas vive atualmente em Ilhabela, litoral paulista.

 

A educadora Fabiana Côrtes

A educadora Fabiana Côrtes em ação 

 


Griô, um termo da África Ocidental que se popularizou na língua portuguesa, diz respeito ao “indivíduo que, numa comunidade, detém a memória do grupo e funciona como difusor de tradições”, de acordo com o dicionário Oxford Languages. O griô é o sábio que conta as histórias. Histórias que condensam e perpetuam os costumes, as crenças, os conhecimentos e os mitos de um povo. 


Fabiana exerce esse papel partindo da literatura, mas não se limitando a ela. 


Com a Companhia na Educação, ela media o Clube Entre Livros e Leitura, um clube de leituras pensado especialmente para educadores. Antes de ser convidada para assumir essa missão, ela já era educadora-parceira da Companhia na Educação e colecionava experiências de organização de clubes de leituras e cursos por meio do perfil @antonieta_kombiblioteca, um projeto de caravana literária idealizado por ela.


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De carona para um mundo mais decolonial e antirracista

Antonieta, a Kombi Biblioteca Itinerante

Antonieta, a Kombi-Biblioteca Itinerante, que foi barizada em homenagem à educadora e política Antonieta de Barros


Antonieta é o nome da kombi-biblioteca criada por Fabiana a partir do desejo de fazer com que os livros chegassem até as pessoas e não fosse preciso se deslocar para ter acesso à literatura. Ela havia visto uma notícia falando sobre a diminuição brusca no número de pessoas leitoras no Brasil, muito por conta das tecnologias, pelo uso das telas. Essa informação, se somouao contexto imposto pela pandemia, que trouxe necessidade de fomentar a volta da circulação das pessoas e do convívio social. A semente do projeto foi pensar uma forma trabalhar a literatura estimulando o convívio entre as pessoas. “Ele vem também por uma crise pessoal, que era me deparar com todos os meus livros e saber que as pessoas não têm o mesmo acesso. A leitura no Brasil ainda é muito desigual. E foi aí que pensei na Kombi Biblioteca Itinerante”, conta.


A Kombi é toda adaptada para servir mesmo como biblioteca e facilitar a experiência de quem se aproxima: os livros ficam expostos em uma espécie de balcão e o teto abre. O projeto começou por meio de uma plataforma de financiamento coletivo, e acabou sendo eleito em um edital que procurava propostas para trabalhar a saúde emocional no pós-pandemia.

 


Possibilitar esse encontro com o livro, mesmo que inusitado, mesmo que no meio da rua, com uma biblioteca itinerante, faz com que as pessoas possam ser convidadas à leitura e que essa relação, através da rua também possa conectar as pessoas de alguma forma”, Fabiana Côrtes, educadora, mediadora de leitura e contadora de histórias


Antonieta, como foi chamada a Kombi, é uma homenagem a Antonieta de Barros [1901-1952], grande educadora brasileira, que foi também uma das primeiras mulheres a serem eleitas no Brasil e a primeira negra a assumir um mandato. Foi deputada estadual em Santa Catarina, sendo por duas vezes a única mulher na Assembleia Legislativa. Como política, ela atuou pela educação, propondo a concessão de bolsas para alunos carentes. E como educadora, criou um cursinho popular em que alfabetizava adultos. 


Ter Antonieta de Barros, como “patrona” da kombi itinerante diz muito sobre o projeto e sobre a atuação de Fabiana na literatura. Ela trabalha com livros a partir de uma curadoria diversa, buscando reverter o apagamento de narrativas que foram invisibilizadas, a partir de referências anticoloniais e antirracistas. Também organiza formações de formadores,  “Com a Kombi, senti a necessidade de adequar toda linguagem desse repertório do acervo,uma vez que a curadoria é toda feita com literatura negra, indígena e caiçara, para conectar com o território, para trazer também essa diversidade, que durante muito tempo não esteve presente no mercado editorial, em livrarias, em bibliotecas”, pontua.

Com a abertura no mercado para publicar pessoas negras, indígenas ela sente na prática surgir aos poucos essa compreensão dessa outra dimensão narrativa de memória e de experiência, que também é permeada por uma série de questões sociais. E com isso, se faz mais do que necessário pensar no sentido das leituras – e da literatura – para que haja uma conexão com a realidade.. “ a gente precisa buscar esses sentidos, um sentido profundo mesmo. Para que a leitura possa se conectar e estabelecer uma relação de reconhecimento pelas pessoas leitoras e até de estranhamento.Porque alguns vão se reconhecer e outros vão estranhar. Para uns vai ser uma identificação profunda. E para outros vai ser um incômodo profundo descortinar certas realidades”, observa.

 

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A mediação e as chaves de leitura

Fabiana e sua Kombi Antonieta

Fabiana e Antonieta, a Kombi, promovendo o encontro com os livros

 

Para Fabiana, o papel da mediação de leitura vai muito além de abrir portas para de se relacionar com o texto de uma forma objetiva. Está na possibilidade de abrir para o leitor novas chaves de leitura que vão ajudá-lo a acessar novas questões, novos olhares. “A gente pode abrir uma chave para falar decolonialidade. Ou pode abrir uma chave para falar do sentido de Ubuntu. Trazer essas referências eu entendo que é o papel do mediador.  E acho que aí existe um ponto de entrada real para literatura”, pontua.


Como educadora, ela acredita que o papel do mediador é ir criando pontes entre pessoas leitoras e texto, entre texto e mundo, entre pessoas e mundo, em meio a tantos atravessamentos. E é assim que a formação leitora pode ir se consolidando, à medida que também vão se alargando perspectivas e se estreitando as relações.  “O nosso papel é sustentar uma complexidade muito maior, múltiplas interpretações, para trazer a leitura para esse espaço de formação intelectual, mas também ética, sensível, estética e que possa também dialogar com o repertório das crianças e adolescentes. Dialogando efetivamente com a vida”, explica. Para a especialista, se preparar para o ato de mediar é prever as chaves de leitura que a obra pode possibilitar.


Por isso, ela defende que é preciso, como mediador, criar caminhos para que as pessoas, em suas leituras, construam as suas próprias entradas no texto.“A gente sai daquela ideia de que de qual é a interpretação correta?’ Não existe interpretação correta. A leitura se dá dentro do diálogo com quem a gente é. Por isso vão surgir diversas interpretações”, explica.


É claro que não há uma fórmula pronta. As chaves de leituras são como portas de entrada para o texto, para perceber as camadas, estabelecer as relações. E isso também muda conforme o território, a época, o contexto. Se o mundo muda, as chaves de leitura precisam mudar também. Interpretações antigas precisam ser revisitadas. E o leitor precisa acompanhar essas mudanças.


A chave de leitura funciona como um descascador. Ela é uma ferramenta que permite ver o todo por trás da casca”, Fabiana Côrtes, educadora, mediadora de leitura e contadora de histórias


O mediador pode ajudar a abrir as portas - mas cada um é que escolhe se vai entrar. E construir sua própria relação com cada leitura. A mediação de leitura, afinal, é como um convite ou uma oportunidade para que o leitor e ou a leitora vá exercitando fazer suas próprias escolhas.


(Texto: Naíma Saleh)

 

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