Livrarias e suas histórias: como um casal de advogados criou a Contos do Ben, um espaço para amar os livros para as infâncias na capital do Paraná

12/06/2026

Uma casa branca, grande, bem “cara de residencial”. Na entrada, os famosíssimos cacos de tijolinhos em tons de vermelho levam à porta. No alto, o nome Contos do Ben e uma figura estilizada de uma criança lendo. 

Livraria Contos do Benç

A fachada branquinha e a entrada de caquinhos marcam a identidade da livraria Contos do Ben

 

Por dentro, como mostrado de forma remota e por vídeos e fotos ao Blog Letrinhas, várias estantes móveis e vazadas compõem o espaço, ainda sobrando muito lugar para circular. As prateleiras são divididas entre brinquedos, principalmente jogos, e livros. Muitos livros. A Livraria Contos do Ben, localizada no bairro Cristo Rei, em Curitiba, capital do Paraná, desde 2022 recebe famílias, professores e, principalmente, crianças e jovens de portas e janelas abertas com o objetivo de divulgar a riqueza de nossa literatura contemporênea para infância e juventude. 

Mas há algo bem específico que constitui esse lugar: os donos. A Contos do Ben é uma livraria de dois advogados, Gisele Cassano e Fernando Santos. O impulso para esta mudança na área profissional: o nascimento de Benjamin, o filho do casal. Como acontece com muitas famílias de hoje, nesta área ter filhos significa conhecer, entrar, se apaixonar por um acervo de livros que não tínhamos acesso quando éramos crianças. Mediar livros para os filhos tornar-se ainda mais mágico, pois os adultos podem ampliar seu repertório leitor e seu modo de ler de forma que nunca havia experimentado antes. No caso dos dois, foi também um recomeço da paixão por estudar. “Somos de outra área e, então, a gente foi estudando, foi lendo. E quanto mais a gente lia sobre a literatura infantil, a gente ia se apaixonando”, conta Gisele. 

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O antes

A vida deles é marcada por mudanças, talvez ja estejam acostumados. Embora tenham mexido com uma parte do mercado cultural de Curitiba, nenhum dos dois é natural da cidade, onde ambos se conheceram. Gisele nasceu em Bebedouro e se formou-se em Direito na cidade de Franca, tudo interior de São Paulo. Fernando é de Londrina. 

Vinte anos atrás, Gisele mudou-se para Curitiba. “Sempre trabalhei com Direitos Humanos, e muito com movimentos sociais. Depois trabalhei com a questão das mulheres e vim para uma organização de direitos humanos, aqui em Curitiba, que ficava numa cidade próxima da região metropolitana, como coordenadora de um centro de referência em direitos humanos. Também oferecíamos uma assistência jurídica gratuita para a população. Então eu sempre trabalhei com mulheres em situação de violência, idosos, crianças em situação de vulnerabilidade de risco social. Isso sempre mexeu muito comigo, aliás”, conta. Já Fernando foi convidado por um colega a abrir um escritório de advocacia em Curitiba, e chegou por lá em 2010. Como os pais moravam em Curitiba, decidiu que poderia arriscar a nova vida. Os dois, no entanto, se conheceram em algo fora da profissão: por conta de um final de semana e uma roda de samba. “Aí nunca mais a gente se largou”, diz Gisele. Era 2015. Em 2019, e Benjamin nasceu e tudo mudou, mais uma vez. 

O pequeno nasceu prematuro e foi um primeiro “chacoalhão” daqueles de repensar a vida. Quando a licença-maternidade acabou, pouco depois veio o caótico período de isolamento por conta da pandemia da COVID-19, e ela voltou para casa. Fernando, como trabalhava com a iniciativa privada, fez seu trabalho também em home-office. Ambos tiveram a ambiguidade de sentimentos: o momento era trágico, o dia a dia com o bebê e o trabalho online desafiador, mas acompanharam o desenvolvimento de Benjamin muito de perto. Voltaram à uma rotina em 2021, mas Gisele já sentia que queria mudar de vida, e ambos pensaram numa transição de carreira. Só não sabiam em que área. 

Contos do Ben

Fernando, Benjamin e Gisele na Contos do Ben

 

Sim, as franquias de lojas de chocolates passaram pela cabeça deles. Mas queriam algo que amassem e que, ao mesmo tempo, os mantivesse próximos ao filho. “Eu vi uma matéria, um dia de manhã, falando sobre uma livraria infantil em São Paulo. A Gi acordou, eu conversei com ela, e foi um ‘acho que é isso’(risos)”, conta Fernando. “Acho que era o programa Pequenas Empresas, Grandes Negócios. E ele: eu vi o programa, achei uma loucura, mas o que você acha? (risos)”, contou Gisele da conversa que mudou a vida dos dois. 

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Vida de livreiros

Parecia uma ideia desafiadora porque sabiam da resistência à cultura na cidade. Mas os livros tomavam conta da casa deles, fazia muito sentido. “A gente lia muito para o Benjamin”, diz Gisele. “Desde a gestacão”, conta Fernando. Tudo foi se encaixando. “De formalizar a ideia, pesquisando como poderia ser. Vimos que só o livro talvez fosse mais difícil. Então fomos trazendo junto brinquedos e jogos, tudo educativo, nada licenciado”, explica Fernando. “Brinquedos que fizessem sentido com os livros”, completa Gisele. 

Contos do Ben

Estantes cheias; espaços vazios na livraria  Contos do Ben

 

Quando começaram a desenhar um acervo, primeira etapa foi, claro, lembrar das leituras da infância. Fernando não teve tanta proximidade com a literatura – sua paixão era a música – mas Gisele carregava aquelas memórias de leituras feitas pela avó. Ambos tinham referências clássicas, como os livros de Ziraldo e da Ruth Rocha, A Fada Que Tinha Ideias (de Fernanda Lopes de Almeida e ilustrações de Edu, Ática). “Deu certo. Estamos conversando agora com você!”, brincam os dois. 

“A gente pesquisou muito. A gente estuda muito. Saímos no começo visitando algumas livrarias, que percebemos que não tinham um atendimento personalizado. E íamos nas livrarias grandes, milhares de livros para adultos e um lugarzinho para os infantis. E ainda eram produtos mais comerciais”, lembra Fernando. E foram procurando se informar, entrevistas, o material de formação do Itaú Social, podcasts, reportagens, artigos e a revista Crescer. Conversando Gisele e Fernando fica muito evidente que o tom da curadoria é de uma família leitora. “Passamos pros pais muito isso: a presença que é o importante. E que a leitura é um conjunto de coisas. Conhecemos outras pessoas, contadores de histórias, um novo universo”. E contam como os adultos participam dos encontros na livraria. “Trouxemos o ‘A História de Colinho’”, diz Fernando, e que surpreende demais os pais de bebês. 

A Contos do Ben parece um lugar mesmo de formação de leitor de várias idades. E não apenas por questão de acesso: mas também, por conta de, por trás da curadoria cuidada e pensada todos os dias, existe um pensamento sobre a importância de ler. Eles vêem, sim, os pais interessados, as crianças querendo ler. E gostam de ouvir o que as pessoas desejam quando entram na livraria, oferecem alternativas de livros e editoras, etc. São questões tão fundamentais que já ocupam suas preocupações para uma nova fase em breve: abrir para franquia. 

Gisele e Fernando passaram a ver cada obra com mais atenção, tentando sempre ler os detalhes, acompanhar o que se fala sobre. “Ir conhecendo cada vez mais esta bibliodiversidade foi o que mudou a nossa forma de olhar o livro infantil. A Gisele que lia em 2022 quando abrimos já não é a mesma”, conta Gisele. “A gente está aprendendo todos os dias”, confirma Fernando. 

(Texto: Cristiane Rogerio)

 

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