Pelo direito de pais e mães serem chatos - ou por que cuidar também é frustrar
Entre o medo de traumatizar o filho e a vontade de ser legal, muitos pais e mães se esquecem que está tudo bem ser chato. Entenda por que
Ensinar as crianças a colocarem seus próprios limites é fundamental para que elas entendam que têm soberania nas decisões sobre o próprio corpo. Beijar, abraçar, sentar no colo precisam ser decisões consensuais – e as crianças, mesmo sendo pequenas, têm todo o direito de dizer ‘não’ sem sentir nenhum tipo de constrangimento. Falamos bastante sobre isso nesta matéria, em que apresentamos o livro Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito! (Brinque-Book, 2026), com texto de Jayneen Sanders, ilustrações de Sarah Jennings e tradução de Lígia Azevedo. A partir de exemplos bem reais, que fazem parte das dinâmicas entre famílias e amigos, as crianças são introduzidas à ideia de que cada pessoa tem um limite corporal que deve ser respeitado. E que aproximações precisam de consentimento para acontecer. Além de editora, Jayneen é professora do ensino fundamental na Austrália, mãe de três filhos e uma defensora ativa do ensino sobre segurança corporal e igualdade de gênero.
Em entrevista ao blog australiano StoryBox Hub, a autora disse que “ensinar sobre segurança corporal é um pouco como colocar o cinto de segurança no seu filho: você espera que ele nunca precise usá-lo, mas ele está lá para o caso de ser necessário”. Ela contou ainda que muitos sobreviventes de abusos contam a ela que se ao menos tivessem percebido, logo no primeiro toque inadequado, que aquilo era errado, suas vidas seriam muito diferentes. “Pais e educadores podem fazer a sua parte. Ensinar sobre segurança corporal e consentimento pode gerar um ‘efeito cascata’ — no qual uma família recebe essa orientação essencial e compartilha sua importância com outra, que, por sua vez, ensina seus próprios filhos. E assim, o movimento se propaga, alcançando cada vez mais famílias”, reforçou durante a entrevista.
Mas aprender a estabelecer limites não basta quando se fala em prevenção de violência sexual. Uma nova leva de livros da autora acaba de ser publicada pela antiga Coleção Canoa, atual selo infantil da Companhia das Letras, abordando algumas ferramentas importantes para que as crianças conheçam o próprio corpo, saibam identificar situações inapropriadas e sejam capazes de buscar ajuda. São quatro livros, ilustrados por Letícia Moreno e traduzidos por Gabriela Ubrig Tonelli, que formam a Coleção Consentimento: O corpo é meu - Como reconhecer suas partes íntimas e o que fazer se quiserem tocar em você (Canoa, 2026), Opa! O que é isso? - Como reconhecer sinais de alerta e o que fazer ao senti-los (Canoa, 2026), Eu não quero! - o que é consentimento e como impor limites (Canoa, 2026) e Alguém para me escutar – Como formar rede de apoio e sentir segurança (Canoa, 2026).
Em O corpo é meu as crianças aprendem a nomear de forma apropriada as partes íntimas e a entendem que elas não devem ser vistas nem tocadas por outras pessoas. Sabe aquela sensação de que há algo errado, mas pode ser difícil nomear exatamente o que? Em, Opa! O que é isso?, a autora ajuda as crianças a identificarem situações inapropriadas a partir das reações do corpo: calafrios, suor, coração acelerado. Já em Eu não quero!, muitos dos conceitos apresentados em Vamos falar sobre limite corporal, consentimento e respeito! são retomados, reforçando que saber dizer ‘não’ também é uma forma de autocuidado. E em Alguém para me escutar, o conceito de rede de apoio se apresenta como um grupo de adultos de confiança e as crianças encontram caminhos para formar a sua.
Todos os livros seguem a mesma estrutura, com dicas para adultos na hora de fazer a mediação, uma história que trabalha o tema a partir da experiência de um personagem e perguntas, organizadas por páginas, para guiar as conversas entre adultos e crianças.
Sim, é um assunto desconfortável e assustador. Mas principalmente urgente. Só no Brasil, em 2025 foram notificados 59.887 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes pelo Sinan, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde. E infelizmente, ninguém está imune. “Toda criança pode ser vítima de violência sexual”, explica Cristina Cordeiro, diretora-adjunta do Instituto Liberta. “Os dados mais recentes mostram que 77% das vítimas registradas de violência sexual são menores de 14 anos, e 27,1% têm entre 0 e 9 anos. A maioria é do sexo feminino (87,8%), mas meninos também são vítimas e frequentemente enfrentam ainda mais dificuldades para revelar a violência”, completa.
Ela explica que há alguns fatores que aumentam a vulnerabilidade, não porque a criança tenha alguma característica que "cause" a violência, mas porque o agressor se aproveita de contextos que reduzem a proteção. “Crianças com deficiência, aquelas que vivem situações de isolamento social, as que estão fora da escola merecem atenção especial, porque são fatores que dificultam o acesso à proteção”, explica Cristina.
De acordo com dados do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o IPEA, a violência sexual representa 45,5% das notificações de agressão contra meninas de 10 a 14 anos no Brasil
Vale lembrar que a violência sexual não se limita apenas à força física, mas está ligada a manipulação e abuso de poder, tanto em forma real quanto em ameaças, com ou sem toque físico, não necessariamente apenas nos órgãos genitais. Portanto, também é violência sexual assediar, fazer propostas de relação sexual, produzir materiais com conteúdos sexuais a partir de gravações e fotografias de crianças e jovens ou exibir materiais com esse tipo de conteúdo para eles além de conversar sobre atividades sexuais.
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Outro agravante que dificulta a busca por ajuda é que normalmente os agressores não são pessoas aleatórias ou desconhecidas. Na maioria dos casos, são pessoas que fazem parte do convívio da criança e consideradas “de confiança”. Por um lado, essa distorção da relação de cuidado torna ainda mais difícil para a criança identificar a violência e reagir – afinal, como pensar que um adulto que deveria estar cuidando dela seria capaz de abusar, manipular e intimidar? Por outro, contribui com o silenciamento da família, que não quer se indispor e acaba protegendo a reputação do agressor em nome do “bem-comum”. “Ao contrário do imaginário popular, o agressor costuma ser alguém conhecido da vítima. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, entre crianças de até 13 anos, 59,2% dos agressores são familiares e outros 36,9% são pessoas conhecidas. Isso significa que a violência frequentemente acontece justamente em relações nas quais a criança foi ensinada a confiar”, explica Cristina.
Nessas situações, é comum que o agressor controle a criança por meio de afeto, presentes, ameaças ou culpa. Muitas vítimas até acreditam que, de certa forma, a culpa por essa situação é delas. Para que esse ciclo se quebre, Cristina explica que é importante que os adultos sempre reforcem que:
• nenhum adulto pode usar carinho como troca por silêncio;
• crianças nunca são responsáveis por proteger adultos;
• qualquer desconforto pode ser contado;
• elas sempre serão acolhidas, acreditadas e protegidas.
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A prevenção à violência sexual inclui conhecer o próprio corpo e saber estabelecer limites corporais, entender e respeitar a privacidade e ter uma rede de apoio, adultos em quem se possa confiar. Não é algo que se constrói da noite para a o dia. É preciso conversar, observar, fazer e responder perguntas.
Quanto mais aberta for a comunicação dentro da família, menor é o espaço para o silêncio que favorece o agressor”, Cristina Cordeiro, diretora-adjunta do Instituto Liberta
E mesmo que esse trabalho seja feito em casa e na escola de forma contínua e consistente, é preciso estar atento. Não há um sinal único de que uma criança possa estar sofrendo algum tipo de violência sexual. Cristina aponta que pais e cuidadores devem observar mudanças de comportamento que podem se tornar persistentes como:
• medo intenso ou rejeição repentina a uma determinada pessoa;
• mudanças bruscas de humor, irritabilidade ou tristeza persistente;
• isolamento ou perda de interesse por atividades de que gostava;
• alterações no sono, pesadelos frequentes ou medo de dormir;
• mudanças no apetite;
• comportamentos sexualizados incompatíveis com a idade;
• regressões no desenvolvimento, como voltar a fazer xixi na cama ou falar como uma criança menor;
• queda no rendimento escolar ou dificuldade de concentração;
• queixas físicas recorrentes, como dores sem causa aparente, especialmente na região genital ou abdominal.
Cristina reforça que quando estes sinais aparecerem de forma persistente ou em conjunto, merecem uma escuta acolhedora e, se necessário, uma avaliação por profissionais da rede de proteção: “A criança precisa sentir que será acreditada e protegida”, completa. E nunca é demais lembrar que poder contar com adultos que ouvem, acolhem e protegem é um direito de todas as crianças. E que quantos mais adultos fizerem parte dessa rede, mais protegida a criança estará.
(Texto: Naíma Saleh)
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Apresentar às crianças esse direito sobre o próprio corpo, ensiná-las a expressar seus limites e também a pedir ajuda quando necessário, pode ecoar em outras áreas da vida muito além do corpo
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