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ATÉ O DIA EM QUE O CÃO MORREU
Daniel Galera



Até o dia em que o cão morreu, eu nunca me lembrava dos meus sonhos. Sonhava, é claro, mas as imagens do sonho não permaneciam na memória além daqueles poucos segundos após o despertar. Sempre duvidei de gente que me narrava sonhos de uma noite anterior, pra mim eram mentirosos. Desde aquele dia, contudo, tenho um sonho recorrente. Há pequenas variações, mas é o seguinte: estou deitado no colchão de casal do meu quarto, pelado, lendo uma tralha qualquer. Fecho o livro e me estico na cama, as pernas debaixo do cobertor, escutando apenas o zunido dos mosquitos. Uma pessoa deveria chegar a qualquer momento, tenho essa sensação, mas ninguém chega. A vista da janela é exatamente a mesma daquele apartamento - a água cinzenta do Guaíba, a chaminé da Usina, as ilhas e os prédios -, porém as cores são estranhas, muitos verdes e violetas, com raios piscando no horizonte. Fico deitado no colchão com as pernas esticadas e abertas num ângulo confortável, as mãos por trás da cabeça, deixando o pescoço inclinado o suficiente pra enxergar o céu. Sinto um tremor leve nos órgãos internos, o que imagino serem gases. As contrações ficam cada vez mais intensas, os órgãos se movem, o estômago quer trocar de lugar com o pâncreas. Minha pele esfria, e começo a transpirar um suor nojento. Entendo que algo fora do comum está acontecendo. Meu sangue dispara pelas veias, os órgãos enfurecidos se espremem contra o esqueleto. Uma protuberância começa a crescer perto das minhas costelas, do lado esquerdo, causando uma dor intensa que irradia por todo o tórax e o abdômen. Grito por socorro, mas estou certo de que ninguém escuta. Tenho plena consciência de que estou e permanecerei sozinho. Enquanto o calombo cresce nas minhas costelas, como se o corpo tentasse expulsar um feto maligno, penso que é uma péssima idéia morar num apartamento tão alto, sem telefone, sem conhecer vizinhos. Tento gritar o nome de amigos, minha família, mas os gritos já não saem, e me dou conta de que faz tempo demais que não falo com nenhum deles, ou simplesmente não tenho intimidade suficiente, não me sinto no direito de pedir ajuda a ninguém que me lembro de conhecer. A dor aumenta, tenho receio de desmaiar, ou morrer, e aquele calombo vai crescendo até se tornar uma extensão do meu corpo, a pele esticada, a carne se mexendo por dentro. A saliência assume formas complexas, e logo identifico nela um braço rudimentar, mãos, pernas atrofiadas que se desenvolvem com uma rapidez impossível. Surge também uma cabeça, um toco que se agita e apresenta gradualmente as proporções de um crânio humano. Não posso controlar meus movimentos, e quanto mais tento resistir ao processo, mais sofro. Os membros e a cabeça adquirem um aspecto adulto, e pequenos pêlos escuros brotam daquela outra pele que surgiu da minha. Então, o desespero vai dando lugar a uma espécie de resignação. Entendo que, seja lá o que for que esteja acontecendo, não está sob meu controle. Desejo apenas que acabe logo, que chegue às últimas conseqüências. A própria dor já não me incomoda, entro num transe que não é de sofrimento, e sim um torpor que fica mais agradável a cada segundo. Tremo, sinto as veias inchadas, e um formigamento agradável dá uma sensação de sono. Do meu lado, no colchão, a massa de carne que sai de mim se assemelha muito a um ser humano, o cabelo crescendo, dedos se dobrando, testando as articulações, um outro corpo que cresce a partir do meu em poucos minutos, os dois ainda unidos por um istmo de carne, que vai diminuindo de espessura até se romper num estalo. Finalmente, há dois indivíduos deitados sobre o colchão, desacordados e idênticos um ao outro. O mais estranho é que, a essa altura, já observo isso de fora. Dois sujeitos idênticos a mim, e nenhum dos dois sou eu.

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