A literatura e as pequenas revoluções que ajudam a (re)definir papéis de gênero
Há muitos livros que abordam os papéis de gênero de formas bem sutis. São histórias que, nos detalhes, nos convidam a olhar com mais atenção... Confira algumas delas:
Relatos de guerra, migrações forçadas e situações de vulnerabilidade, entre outros desafios que povoam a história mundial, quando contados pelo olhar das crianças, ganham outras nuances. Na lista de livros que ganharam o selo de Altamente Recomendáveis pela FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), as obras da Companhia das Letras que se destacaram são difíceis, mas também necessárias.
Na categoria “tradução adaptação jovem”, está O livro de Aron, traduzido por Caetano W. Galindo da obra original de Jim Shepard. A história contada é a da Segunda Guerra Mundial, mas pela perspectiva de um garoto que vive as seus dilemas no gueto de Varsóvia. Ele faz pequenos contrabandos para manter o sustento da família, antes de ser separado dos pais e levado a um orfanato.
Memórias por correspondência também ganhou o selo na mesma categoria. Escrita por Emma Reyes, a obra foi traduzida por Hildegard Feist. Autobiográfica, compila 23 cartas da autora, enviadas ao seu amigo Germán Arciniegas. Nelas, a artista plástica relata as dificuldades que sofreu em sua infância, na Colômbia. Reyes passou a juventude em um convento, onde sofreu por ser filha ilegítima. Deixou o lugar sem ao menos saber ler, o que não impediu que construísse sua reconhecida carreira artística anos depois, na França. A obra expõe não só a vida de Emma, mas toda uma hipocrisia dessa sociedade religiosa colombiana na década de 1930.

Já na categoria “tradução adaptação informativo”, o tradutor Paulo Geiger foi contemplado com o seu trabalho Para poder viver: a jornada de uma garota norte-coreana para a liberdade, escrito originalmente por Yeonmi Park e Maryanne Vollers. O enredo: a vida da própria Yeonmi Park, que fugiu de sua terra natal aos 13 anos para sobreviver. A narrativa conta as dificuldades da vida na Coreia do Norte, os perigos da travessia para a China até a Mongólia e a entrada na Coreia do Sul, onde, enfim, encontra a liberdade.
O livro mais otimista é teórico: escrito por Ana Maria Machado, Ponto de fuga: conversas sobre livros reúne 13 ensaios da renomada escritora. Eles abordam as nuances do mercado editorial, o papel dos professores nas escolas, a literatura infantojuvenil e o despreparo dos educadores nas redes de ensino, sem adquirir uma visão pessimista, mas mostrando avanços importantes. O prefácio é escrito por Marisa Lajolo, professora titular de Teoria Literária na Unicamp e pós-doutora pela Brown University, dos Estados Unidos.

A FNLIJ também levou à Feira Internacional de Bolonha 2017, que aconteceu em abril, sete livros do selo Companhia das Letrinhas. A seleção dos 23 jurados da fundação incluiu títulos como Chico Bento, 7 anos, A inacreditável história de 2 crianças perdidas, Pai, quem inventou?, As fantásticas aventuras da Vovó Moderna, Vou crescer assim mesmo - Poemas sobre a infância, Quem tem medo de Curupira? e Terremota.
No evento, também ganharam destaque Sem fim, com ilustrações de Marilda Castanha, e os vencedores da última premiação, que reconheceu a qualidade de Inês (melhor livro infantil e melhor projeto editorial), de Roger Mello e Mariana Massarani, Malala – A menina que queria ir para a escola (melhor livro de não ficção e autor estreante), escrito por Adriana Carranca e ilustrado por Bruna Assis, e O bobo do rei (melhor peça teatral), de Angelo Brandini, com ilustrações de Raul Aguiar.
Há muitos livros que abordam os papéis de gênero de formas bem sutis. São histórias que, nos detalhes, nos convidam a olhar com mais atenção... Confira algumas delas:
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