5 perguntas para Fabrício Corsaletti

16/05/2022

 

Na coluna deste mês, tive uma conversa por e-mail com Fabrício Corsaletti sobre seu recém-lançado Engenheiro fantasma. No prólogo do livro, Fabrício conta que esses poemas teriam partido de um sonho que ele teve no qual havia um livro de sonetos de Bob Dylan escritos na Argentina. Como bom sonho que se preza, o de Fabrício terminava justo no momento em que ele estava a ponto de alcançar o exemplar com os poemas do cantor. Então, ao acordar, ele sentou e escreveu, em nove dias, seu próprio livro de sonetos portenhos de Bob Dylan (quase como se tivesse sido transcrito, traduzido, psicografado). Assumindo a máscara e a voz de um Dylan latino-americano, Fabrício percorre a capital argentina em 56 sonetos que mesclam humor, ternura, certa dose de melancolia, e são atravessados por personagens frescos e intensos, em vívidos “quadros portenhos”. Neles, Dylan parece ser ainda mais Dylan – Fabrício, ainda mais Fabrício. E a vida, ainda mais intensa e autêntica no papel e na imaginação. Como num sonho. Boa leitura!

 

1. No prólogo do Engenheiro fantasma, você conta a história do sonho que estaria na origem do livro. Você poderia contar um pouquinho mais sobre o processo de escrita? Como foram pensados os temas, os personagens, a presença da cidade no livro, o trabalho formal com os sonetos etc.

Sim, o Engenheiro fantasma aconteceu como conto no prólogo. Tive esse sonho com o livro de sonetos do Bob Dylan. Aí acordei e tentei escrever um soneto imaginando como seriam os sonetos dele. No fim desse primeiro dia, eu tinha escrito sete sonetos. Pensei que esse conjunto fosse virar uma série e estava satisfeito com isso. Mas no dia seguinte a fonte ainda não tinha secado, e escrevi mais nove. Em nove dias, escrevi os cinquenta e seis sonetos que compõem o livro. Não foi nada planejado. Apenas segui a minha intuição. E parei quando senti que a experiência estava terminada (eu tinha estado dentro e de repente estava fora). Tudo o que aparece no livro foi surgindo quase que naturalmente (palavra complicada). Temas, personagens etc. Um personagem se formava na minha cabeça e na mesma hora eu o enfiava no livro. Como morei em Buenos Aires por seis meses, em 2005, e voltei muitas vezes para lá depois disso, não foi difícil colocar aquela cidade, que para mim é mágica, nos poemas. A impressão (a ilusão) era a de que a barreira entre a minha imaginação e a minha escrita havia sido abolida. Nunca escrevi com tanta facilidade. Não quero de jeito nenhum dar a entender que foi um processo frenético, alucinado, como o desses personagens de filmes de Hollywood. Pelo contrário, foi um processo tranquilo. Tranquilo e concentrado. Lembro que eu acordava cedo (quatro, cinco horas), ia dormir por volta das onze, comia pouco, bebia quase nada, sentia poucas dores nos braços (tenho tendinite crônica mas naqueles dias a tendinite sumiu). Foi a minha maior aventura como escritor. Pelo menos até agora. Sinto que vivi para escrever esse livro.

 

2. Ainda sobre o prólogo, curiosamente pensei em dois livros dos séculos XVII e XVIII que põe em jogo a autoria, As cartas portuguesas, de Mariana Alcoforado, e As cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga. Você assume que escreveu o livro (ao contrário desses dois que supostamente seriam “traduções”), mas a história contada no prólogo brinca com a ideia de os poemas seriam traduções. Você poderia comentar esse uso de uma máscara para escrever?

Vejo tudo isso como um jogo. Um jogo borgiano (li muito Borges no ano anterior à escrita do livro) e dylanesco. O Dylan é o cara dos duplos, das máscaras, dos deslocamentos de identidade. Nos seus grandes momentos, é um rimbaudiano (“eu é um outro” etc.). Nunca antes eu havia escrito com uma máscara tão reconhecível. Nem mesmo nos meus livros de prosa, ficcionais. Mas conheço a fundo, acho, Bob Dylan (e, talvez, Rimbaud e Borges), e pensei obsessivamente sobre ele, sobre a poesia dele, nos últimos quinze anos. Não foi difícil assumir sua voz, que é vária, e misturá-la com a minha, se é que isso existe. Não tive pudor algum de fazer isso. O estranho é que nunca fui tão autoral como nesse livro (mas pode ser viagem minha).

 

3. Lendo o livro tive a sensação de que o Bob Dylan é ainda mais Bob Dylan na sua voz, como se o livro fosse uma espécie de tradução livre das canções dele (não-literal, mas, sim, do tom, do clima). Mas se o livro é dylanesco, acho que é também bastante bolañesco, não só pela ambientação latino-americana, como pelos personagens, tom, forma de ver as coisas – a baterista canhota, um mendigo agarrado a uma boneca, as tavernas da lepra e da loucura, a garota leopardo etc. – e que me remetem, é claro, à sua própria poesia (como se Dylan e Bolaño estivessem ainda mais próximos na sua escrita). Quais outros poetas/músicos/referências aparecem no livro?

Pois é. Bolaño e Dylan têm tudo a ver. Poetas da liberdade, da estrada, do sonho desmedido (que acaba se tornando um enorme pesadelo). Dois pessimistas. Líricos com um pé no épico. Narradores poderosos e terrivelmente engraçados. Dylan é como um deus para mim. Bolaño seria o amigo genial. Outras referências no livro? De cabeça, posso citar: Leonard Cohen, Chico Buarque, Chavella Vargas, Caetano Veloso, Violeta Parra, Jorge Ben Jor, Alejandra Pizarnik, Tchekhov (tem um poema inteiro sobre A estepe), Roberto Goyeneche, Borges, Ernesto Sabato, a Bíblia (sobretudo os profetas), Homero (há quatro ou cinco referências à mitologia grega), Rimbaud, Villon, Kerouac, Ginsberg, Tom Petty, entre outros.

 

4. Se por um lado há no livro a presença de grandes questões, muitas vezes tratadas de modo alegórico (como nas frases, “cara, a vida é uma piada, /não perca tempo caçando tesouros”; “o futuro chegou, veio quebrado”, “o sábio é o imbecil que ficou mudo” etc.), por outro lado elas estão imersas no mundo, nas ruas, na voz das pessoas, no rés-do-chão. E essa convivência do alto com o baixo é entremeada por um humor, um non sense, um toque de onírico que trazem uma suspensão para quem lê. Acho que esse non sense ocorre um pouco pelas rimas (é maravilhoso deparar com o “teatro colón” relacionado ao “ultrassom”, ou o “ciclone” com a “Sharon Stone” e o “trombone”, mas não só. Como se dão todas essas convivências dentro dos poemas?

Essa descrição que você fez do meu livro é uma das características que eu mais amo no Bob Dylan. Nele, vem tudo misturado: alto, baixo, sublime, grotesco, profano, sagrado, humor, tristeza etc. Se eu devo alguma coisa a ele (e devo muito!), é uma certa ideia de liberdade. Liberdade de pensamento, liberdade de justapor imagens aparentemente desconectadas entre si, que no fim acabam se unindo de maneira mais ou menos misteriosa. Tudo dito ou gritado ou sussurrado com uma convicção inabalável. No mais, é assim que eu sinto a vida, é assim que eu vivo. Não conheço outro mundo além deste aqui. É nele que as coisas acontecem, sejam grandes ou pequenas. Está tudo aí para quem conseguir abrir os olhos. Às vezes você está apaixonado e é obrigado fazer a declaração do imposto de renda. Às vezes você está escrevendo um poema sobre mãos sagradas e o interfone toca e é a síndica dizendo que o prédio vai ficar sem água nas próximas seis horas. É assim que as coisas acontecem. Não dá para compartimentar a vida, que é muito maior do que a nossa capacidade de percebê-la. Num dos sonetos tem este verso: “gosto das coisas puras e sacanas”. É por aí.

Quanto às rimas, elas não podem estar ali só para cumprir tabela. Elas têm que se justificar, isto é, surpreender. Dar a impressão de que são as primeiras rimas da história da poesia (risos). Existem, mas por um triz: poderiam simplesmente não existir. Sinto ternura pelas rimas boas e muita raiva das rimas burocráticas.

 

5. Você poderia contar sobre o processo de escrita do soneto 36?  

Escrevi o soneto 36 da mesma maneira que escrevi todos os outros, ou seja, no tranquilo furacão daqueles nove dias, que hoje me parecem um dia só. Não lembro de nenhum detalhe especial em relação à escrita dele ou de qualquer outro soneto do livro. A quase exceção é o soneto 27, por ser uma tradução de “All Along the Watchtower”. Mas mesmo esse foi feito numa tacada só, com liberdade, sem o sofrimento que em geral envolve o trabalho de tradução.

 

36

o futuro chegou, veio quebrado
o carteiro parece deprimido
meu cafe? da manha? e? um comprimido
e o jornal atual do me?s passado

voce? escolheu o marinheiro errado
estou cheio de cera nos ouvidos
toda canc?a?o e? feita de rui?dos
em breve atracaremos do outro lado

o vento e? doce, os animais, divinos
voce? lamenta, eu lamento tambe?m
sua analista acha que eu na?o presto

amanha? vou comprar um violino
libertar o penu?ltimo refe?m
rasgar as cartas e queimar o resto

Marília Garcia

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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