O tempo de Dakota Blues, por Simone AZ
Simone AZ celebra um ano da publicação de seu primeiro romance, "Dakota Blues"
“Tem que aprender a viver como gente que sonha, mesmo que o sonho pareça febre”, diz a personagem tia Vavá em determinado momento de O Dono e o Mal. Essa frase se tornou o centro gravitacional do romance. Porque a febre que me acompanhou nos últimos cinco anos e meio acabou se transformando justamente neste livro.
A escrita atropela, desorganiza, cobra seu preço, mas chega a algum lugar. Ou pelo menos tenta. Durante os anos em que escrevi O Dono e o Mal, vivi processos distintos. Houve momentos em que o romance parecia crescer sozinho. Em outros, parecia impossível avançar uma linha sequer. Hoje percebo que escrever um livro longo não é apenas um exercício de imaginação ou talento, é também insistência.
Existe uma imagem romântica da literatura como um território quase sobrenatural. Mas a verdade é que a escrita é uma das atividades mais pragmáticas que existem. É preciso tempo. E, para ter tempo, é preciso dinheiro. Durante esse período, escrever o romance também significou sobreviver. Significou aproveitar os períodos em que eu conseguia respirar financeiramente para imediatamente converter esse respiro em mais escrita.
Roberto Bolaño, já doente, escreveu 2666 avançando para uma batalha perdida, buscando deixar alguns últimos trocados para os seus filhos. Em determinado momento, ele escreveu que “a literatura se parece bastante com a batalha dos samurais, mas um samurai não luta contra outro samurai: luta contra um monstro. Geralmente ele sabe, de antemão, que será derrotado. Saber que será derrotado e ter o valor de sair para o confronto: isso é a literatura”.
A luta muda de cenário, muda de idioma, muda de contexto histórico, mas permanece sendo luta. É Carolina Maria de Jesus recolhendo palavras entre os lixos do Canindé, escrevendo nas frestas do tempo e da fome. Stephen King enfrentando a própria dependência química enquanto produzia livros que pareciam tentar registrar a memória antes que ela desaparecesse. É a ansiedade dos que precisam preencher páginas entre as lacunas da vida.
Existe algo semelhante entre esses escritores tão díspares: a percepção de que escrever é uma forma de confronto contínuo contra alguma coisa que nos foge. Esse confronto dialoga com as minhas vivências e com o que os protagonistas de O Dono e o Mal, a família Farias de Assumpção, passam. São eles Graciliano, Genival, Valéria, Batista e Soledade. Da ditatura aos dias de hoje, essa família negra tenta sobreviver de forma digna a um país fundado sobre estruturas de violência que permanecem operando, ainda que assumam novas formas.
Tentam, acima de tudo, sonhar.
Existe uma figura que aterroriza os Farias de Assumpção no livro chamado O Inglês. Ele pode ser visto como uma metáfora da colonização, mas prefiro vê-lo como a própria colonização. Algo que chega e invade sem pedir licença. O que me interessava era criar uma figura que materializasse algo maior: uma espécie de Deus ex machina, que desorganiza ao invés de organizar. Não uma solução súbita, mas um problema súbito.
Foi lendo Frantz Fanon, citado na epígrafe, que comecei a entender melhor aquilo que o romance fazia intuitivamente na construção desse personagem. Fanon percebe que a colonização não é apenas um evento histórico, é uma linguagem mediada pela violência. Um sistema que invade não apenas o território físico, mas também o imaginário, os desejos, a forma como os sujeitos passam a enxergar a si mesmos. Em alguns momentos, pensei n’O Inglês como um pai racista, violento e abusivo, cuja presença estrutura a casa inteira, mesmo quando ele não está visivelmente ali.
Ampliando essa discussão, temos no Brasil um projeto de integração que mantém intacto mecanismos profundos de preconceitos. O resultado é uma espécie de encruzilhada identitária: a identidade é problemática, mas também não podemos abrir mão dela. Por isso o meu romance está interessado menos em respostas e mais em tensões. O dono de algo pensa que manda, mas não manda completamente. Existe sempre uma ordem acima dele. Uma lógica maior. O mal, por sua vez, nunca é inteiramente individual. Ele circula através das instituições, da linguagem, da herança histórica. Do que somos e do que negamos.
Para desenvolver essa saga familiar, li bastante durante esses anos. Aprendi com escritores distintos. Em O Dono e o Mal, convivem Dostoiévski e Cruz e Souza. Frantz Fanon e Mariana Enríquez. Octavia Butler e Alain Mabanckou. A tragédia familiar e o racismo. O melodrama e a teoria pós-colonial. Amazonas, Rio de Janeiro, Paraíba e um mundo fantástico. Letras dos Racionais MCs aparecem atravessando o nome de alguns capítulos como fantasmas. Também criei uma favela ficcional chamada Coleira do Leão, dialogando com a obra Coleira do Cão, de Rubem Fonseca. E essa piscadela diz muito sobre o próprio livro: a tentativa de sentar com tradições anteriores enquanto procuro construir outra coisa. Vocês estão comigo, mas isso não quer dizer que preciso obedecê-los ou reverenciá-los como seres intocáveis.
Como diria o rapper Tyler, The Creator na música St. Chroma: “Give a fuck about tradition, stop impressing the dead” (Foda-se a tradição, pare de tentar impressionar os mortos).
Nesse processo, aprendi que escrever pode ser cortar. Mais de cem páginas desapareceram. Pesquisas inteiras feitas na Rocinha e no Vidigal acabaram removidas da versão final. Como os músicos de jazz, construí um mapa, mas improvisei bastante. Cada página é uma charada a ser resolvida. Nem tudo o que o escritor descobre precisa permanecer na superfície do texto. Mesmo assim, o livro ficou grande e até já escutei colegas dizendo que não precisava ter tantas páginas. Rindo, respondo: “Não reclamem dos escritores que escrevem, reclamem dos que não escrevem”.
O Dono e o Mal nasceu desse acúmulo de obsessões, medos, pesquisas, leituras, questionamentos e cortes. Nasceu, acima de tudo, da vontade de escrever sobre sonhos, mesmo que eles sejam febris.

Batista dos Santos Assumpção é um homem preto de origem humilde, nascido na Paraíba, que sonhou com uma vida melhor derrubando árvores na construção da Transamazônica, no coração da floresta. Mas seus ideais de um trabalho justo e seu amor ingênuo por Iolanda, uma prostituta local, são destruídos aos poucos. Por fim, acaba envolvido num esquema sem volta com os agentes mais obscuros da ditadura.
Tentando apagar o passado, Batista conhece Soledade da Silva Farias, com quem se casa, na esperança de um recomeço. Mas a mulher carrega suas próprias feridas e opressões, das quais tampouco consegue escapar.
Conquistar uma vida digna, para eles, é uma impossibilidade. Seus três filhos tomam caminhos tortuosos, mas o pior é Graciliano, que segue o legado de selvageria do pai. Ele se envolve com o mundo do crime e arrasta o inferno para dentro da própria família, que busca uma vida tranquila na pequena Brejo do Livramento, cidade paraibana dominada pela produção de cachaça e pela poderosa família Lucena Neumann.
Essa não é uma história tradicional nem previsível. Os Farias de Assumpção são acossados pela figura grotesca e anárquica conhecida pela alcunha de O Inglês, que gradativamente os empurra para um vórtice de loucura. O Dono e o Mal é um romance multifacetado, de diálogos afiados e situações absurdas, que se impõem sobre uma família que avança sem atalhos pelo caminho da destruição.

BRUNO RIBEIRO é escritor, tradutor e roteirista. Mestre em escrita criativa pela Universidad Nacional de Tres de Febrero, em Buenos Aires, é autor de "Glitter" (Moinhos, 2019), "Como usar um pesadelo" (Caos e Letras, 2020), "Porco de raça" (Darkside, 2021) e "Era apenas um presente para o meu irmão" (Todavia, 2023), entre outros. Recebeu diversos prêmios no Brasil e já foi traduzido para o inglês, o espanhol e o francês.
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