Diário de Pilar: por que a série um sucesso?

20/01/2026

Faz 25 anos que a autora, jornalista e roteirista Flávia Lins e Silva começou a escrever Diário de Pilar (Pequena Zahar), uma série de livros cuja protagonista é uma menina corajosa, sensível, curiosa e cheia de amigos. De lá para cá, sempre acompanhada do gato Samba e de seu inseparável amigo Breno, Pilar viajou pelo mundo, passando por vários países e continentes. Da China ao Peru, da Índia ao México, do Brasil para a Nigéria. 

 

Pilar - de Diário de Pilar

 

E nessas tantas aventuras, a menina de trancinhas e calça listrada, que ganhou uma identidade inconfundível nas ilustrações de Joana Penna, se tornou não apenas uma personagem icônica, mas muito, muito querida pelas crianças. “Lá na biblioteca a gente tem todos os livros [da série] e mais de um exemplar de alguns títulos. E eles não param na estante. Estão sempre emprestados. As crianças devolvem e já alguém pega, estão sempre em movimento. A Pilar vive viajando… “, brinca a mediadora de leitura Dilaine Pereira, que atua com alunos do Fundamental 1 da Escola Parque, na Barra, no Rio de Janeiro. 

Os livros da série Diário de Pilar  têm lugar cativo no topo dos mais vendidos para leitores a partir de 8 anos entre os selos infantis da Companhia das Letras. Só Diário de Pilar na Amazônia - que virou filme e estreou nos cinemas neste mês de janeiro com um elenco estrelado que inclui Marcelo Adnet, Nanda Costa e Babu Santana - tem mais de 800 mil exemplares vendidos. O roteiro do filme é da própria Flávia, que já havia passado pela experiência de roteirizar uma obra sua, na versão para a televisão do livro Detetives do Prédio Azul, junto com João Costa. Mas bem antes de ir para as telonas, as aventuras de Pilar se tornaram uma série animada, que voltará a ser exibida pelo Disney Channel neste 21 de janeiro.


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Mas qual é o segredo de tanto sucesso? 

Para os fãs da série, há muitas explicações possíveis. Mariana, de apenas 8 anos, é um deles. Assim que abrimos a câmera do computador para começar a entrevista, a menina estava bem “Pilarzinha”, com o mesmo penteado que a personagem: uma trancinha de cada lado. Mariana leu todos os livros da série, começando por Diário de Pilar no Egito (Pequena Zahar, 2025) e conta que suas amigas também começaram a ler os livros da série depois dela. Logo no início da entrevista, a menina contou que tinha uma mala “igualzinha à da Pilar”, onde ela também guarda diários de viagem, registros que ela começou inspirando-se na personagem. Por enquanto, são só dois, é verdade: um de Porto de Galinhas (PE) e outro de uma viagem por Minas Gerais. Mas Mariana conta que quer viajar para todos os lugares por onde Pilar passou.

A mala de Mariana e a coleção de livros Diário de Pilar

A mala de Mariana e a coleção de livros Diário de Pilar

Para se preparar para assistir o filme, a menina resolveu reler Diário de Pilar na Amazônia. E conta que uma de suas partes favoritas de todos os livros da série é bem no início, onde há sempre uma sequência divertida. “Adoro esse daqui [mostrando Diário de Pilar na China (Pequena Zahar, 2022), que o dragão espirra e o Samba fica todo chamuscadinho depois”, conta a menina.

A mãe, Elisabete Sacon, disse que havia comprado os livros da série, mas tinha deixado-os guardados porque Mariana estava com 6 anos, e ela sabia do filho de uma amiga que tinha sido apresentado às obras apenas aos 8. Mas quando Mariana viu os livros de Pilar na escola, ela mesma trouxe um emprestado para casa. A menina não só leu com autonomia, como também conta que começou a ler livros maiores depois de Diário de Pilar. Quando perguntei se Mariana achava que era parecida com a Pilar, ela não hesitou: “Minhas roupas são um pouco parecidas com as da Pilar…a mala…. e nós duas temos um gato!” 

'Diário de Pilar' e as muitas possibilidades de alargar horizontes na escola


Para a professora Juliane Meyer Trevisan, que também é fã da série, as crianças realmente se identificam com a personagem. “Pilar tem uma fantasia, é divertida, as crianças gostam das curiosidades que ela traz. Tem muito conhecimento, mas também fala de temas muito humanos, de amor, de amizade. Isso nos traz ferramentas para a reflexão com as crianças de muitas formas, mas não de uma maneira forçada”. 


No ano passado, como professora de uma turma de 1º ano de uma escola particular de São Paulo  (SP), Juliane trabalhou com dois livros da série, que se conectaram perfeitamente a projetos que estavam sendo desenvolvidos pela escola. No primeiro trimestre, a área de Ciências Humanas estava trabalhando a cultura afrobrasileira, dentro de uma perspectiva de educação antirracista com o Projeto Sankofa, que abordava questões como ancestralidade, a potência do cotinente africano e o papel fundamental da população negra na construção do Brasil, fazendo uma reparação histórica. Por isso, a leitura escolhida foi Diário de Pilar na África (Pequena Zahar, 2022). “A Pilar nos trouxe boas oportunidades de conversa a partir da narrativa, como quando a personagem fala do navio negreiro.Quando fomos visitar o Museu Afro, em São Paulo, e as crianças lembraram dos navios negreiros por conta do livro. De certa forma, os elementos e relações que estavam no livro estavam muito ligados à pesquisa que as crianças estavam fazendo”, conta.

No segundo semestre, vieram das ciências naturais os insumos para a escolha da obra e a turma leu Diário de Pilar na Amazônia. “O projeto da área envolvia sustentabilidade, falava de consumismo, tentava entender as consequências das escolhas que fazemos e ainda falava da COP30. O livro falava de desmatamento, da emissão de gás carbônico, das queimadas, estava tudo lá”, conta a professora. A experiência com as crianças a partir do livro foi muito fluida, porque tudo virava uma roda de conversa. 

Ela viu nas crianças a mesma indignação que Pilar sente quando se depara com a floresta ameaçada. “Elas perguntavam sobre as queimadas, o corte das árvores. E no livro, a Pilar é realmente muito protagonista no sentido de começar a fazer um movimento para defender o espaço, de reivindicação, de se colocar em um lugar de resistência, de questionar os adultos. E ela vai se envolvendo muito com as questões do sagrado, da mata”, comenta. Viu também os alunos se emocionarem e compartilharem a aflição de Pilar com a passagem em que o amigo Breno fica doente. 

Por estar em uma classe de primeiro ano do fundamental, a mediação foi pensada com muito cuidado, mas manteve a constância, acontecendo de forma diária. “É uma leitura de fôlego, que necessita, sim, de intervenções. Mas muitas crianças fizeram esse esforço, porque queriam realmente entender o livro”. Ao longo dos meses, a professora também viu como as famílias foram se envolvendo com a personagem e com as histórias a partir do que as crianças traziam. “Para mim, é uma leitura que extrapola as idades. Que traz conhecimento, mas principalmente, que emociona”. 

A questão de ser uma “coleção” também provoca muito as crianças ou os fãs de várias idades. Cada vez que termina um livro, já vem a ansiedade pelo próximo destino de Pilar!

 

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