A professora Claudia Fernandes não percorreu o mesmo caminho na docência que a maioria de seus colegas. Antes de chegar à sala de aula, ela fez carreira no mundo corporativo. E foi só aos 40 anos, já com os filhos maiores, que ela decidiu que era hora de tirar seus planos da gaveta e se formou em Letras. “Acho que já nasci professora. Quando eu era estudante, colegas, primos e irmãos vinham à minha casa porque eu dava aulas de reforço. Mas foi só quando cheguei à segunda metade da vida que resolvi correr atrás desse sonho de ser professora”, conta.

Claudia Fernandes com autora Aline Bei
Hoje, Claudia dá aulas em uma escola pública de Caruaru (PE) para o Ensino Médio e é educadora-parceira da Companhia de Educação. Em 2026 ela completa 14 anos na docência, sendo a maioria deles dedicados à redação e à literatura. No perfil @profclaudiafernandes, ela compartilha indicações literárias, tanto de obras como de eventos ligados ao mundo do livro. Ela conversou com o Blog Letrinhas sobre sua trajetória como educadora e sobre como o livro está sempre presente em seus projetos - dentro e fora da escola.
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De volta para a escola
Claudia se formou em Letras em 2009, mas só pisou pela primeira vez em uma sala de aula como professora em 2012. “No início, eu ainda tentava conciliar meu expediente na escola com meu trabalho corporativo. Ainda não sabia que ser professor exige essa presença tão constante”, lembra. A professora começou a lecionar em Recife, onde morava, em uma escola particular de pequeno porte.
Logo ela passou para um colégio maior, particular também, onde começou a dar aulas de redação para turmas do Ensino Médio com foco na preparação de turmas especiais para o ENEM e para vestibulares de medicina e para o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Ela conta que, ao contrário do que acontece nos vestibulares das regiões Sul e Sudeste do Brasil, em que as provas cobram leituras específicas, as universidades da região não têm esse tipo de exigência, porque o foco está nas redações. Com isso, há um abandono da leitura em detrimento da escrita. “É uma fuga de leitores”, como a própria Claudia nomeia. E também um tremendo desafio. Enquanto os estudantes produziam pelo menos uma redação por semana, a leitura ficava escanteada. Mas ela insistia em trazer os livros para a roda. “A redação exige a leitura. São os livros que trazem repertório, que falam da contemporaneidade. De alguma forma, eu consigo trazer para a sala de aula a minha própria experiência como leitora”, afirma.
Um tempo depois, esse colégio abriu uma nova unidade em Caruaru, para onde Claudia se mudou. E há três anos, ela tornou-se professora da rede pública, depois de prestar concurso, onde continua atuando com turmas de Ensino Médio e “mergulhando cada vez mais no universo da leitura”, como ela mesmo diz.
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Clubes de leitura dentro e fora da escola

O Clube de Leitura Jardim Literário, criado por Claudia
Foi depois de visitar pela primeira vez A Feira d’O Livro, na Praça Charles Miller, em São Paulo (capital), que a vontade de se cercar de mais leitores surgiu. “Juntamos um grupo de oito pessoas, que se reunia de forma informal até o ano passado. Até que aqui na cidade abriu uma grande livraria, a Cultural Livraria e Cafeteria Caruaru. E pessoal dessa livraria abriu as portas para mim, oferecendo um espaço para fazer o clube do livro ali”, conta. A mudança, que deu contornos mais formais ao clube, também promoveu uma expansão. Hoje, cada encontro conta, em média, com 30 a 40 pessoas. E a diversidade é um ponto que chama atenção. Há alunos dela, da escola, que participam, assim como pessoas mais idosas, médicos, advogados. E na hora de escolher as obras a serem lidas, não há um viés pré-determinado, mas Claudia tenta priorizar obras escritas por mulheres. “Eu tenho priorizado autoras, mulheres contemporâneas porque eu acredito que a gente tem muito a ganhar”. Ela mesma participa ativamente de outros clubes de leituras, onde descobre novos autores, se aprofunda como leitora e depois transpõe suas experiências para as aulas que dá.
Ela, que não teve muitos recursos para a leitura na infância, e pegava todo livro que podia emprestado, entende bem a importância de garantir o acesso de crianças e jovens a obras de qualidade. O projeto mais recente da professora na escola vai justamente nessa direção, com a criação de um clube de leitura por turma. “O objetivo principal não é fazer prova, nem atividades. É colocar um livro na mão de cada aluno, mesmo que ele não leia. É uma forma de tornar o livro parte do nosso dia a dia”, conta.
Primeiro, cada estudante foi convidado a escolher um livro e as escolhas foram registradas por Claudia em uma planilha. A partir daí, ela começou a criar atividades semanais, para que os alunos pudessem compartilhar suas impressões e experiências sobre a leitura. Ela também criou oportunidades para que as turmas se familiarizassem a procedimentos leitores e ao próximo léxico referente aos livros: entendem o que é um epígrafo, como funciona a ficha catalográfica - que ela apresenta como a ‘certidão de nascimento do livro’ - etc. “Criei uma sequência de atividades que culmina em um dia especial, em que cada estudante apresenta o livro que escolheu ao restante da turma, fazendo o encerramento do projeto com um café literário”, conta. Ela conta que muitos estudantes acabam interessados em ler livros que os colegas apresentaram e que, mesmo aqueles que não leem os livros que escolheram acabam inseridos nesse universo. Um bom exemplo de como o universo leitor vai muito além dos livros em si - está nas conversas, nas trocas, na convivência com leitores.
Claudia ressalta a sorte de atuar em uma escola que tem uma boa biblioteca, não apenas em relação à curadoria dos livros, mas também ao próprio espaço físico, onde as crianças conseguem circular e encontrar conforto para fruírem das leituras. “Os alunos da nossa escola são permanentemente motivados a ir à biblioteca. E há um grupo de alunos monitores que, na ausência da bibliotecária [que fica na escola apenas durante um período] são os responsáveis por cuidar do espaço e organizar os livros”, explica. “Eu sei que nem todo mundo vai se tornar leitor. Mas se depender de mim, meus alunos terão sempre um livro na mão”, conclui.
(Texto: Naíma Saleh)