A geração ansiosa (Companhia das Letras, 2024), best-seller de Jonathan Haidt que escancarou como o uso de smartphones e redes sociais redefiniu a forma como as pessoas se relacionam e comprometeu a saúde mental, causando uma epidemia de transtornos. Mas nem tudo está perdido. Está é a premissa de A geração incrível (Companhia das Letrinhas, 2026, assinado por Haidt e Catherine Price com ilustrações de Cynthia Yuan Cheng e tradução de Lígia Azevedo, que acaba de chegar às prateleiras com uma mensagem de esperança. Sim, é possível - e urgente - repensar nossa relação com a tecnologia. E a forma como a geração alfa, as crianças e jovens nascidos entre 2010 e 2025, lida com o uso de smartphones e de redes sociais pode remodelar como todas as próximas gerações irão fazê-lo também.

Capa de 'A geração incrível' (Companhia das Letrinhas, 2026)
Com texto informativo alternando histórias baseadas em casos reais e diversas linguagens gráficas, o livro é bastante acessível, pensado para um público a partir de 9 anos. A obra explica como o uso de smartphones e redes sociais cria a ilusão de bem-estar e conexão, enquanto na realidade nos afasta da vida real. E revela toda a engrenagem mercadológica por trás do interesse em captar - e capitalizar - a atenção das pessoas. Para Lígia, que foi a responsável pela tradução das duas obras, “A geração incrível se concentra nessa nova geração, mostrando que ela tem poder de escolha. E convida as crianças e jovens a aprenderem com a geração que os antecedeu”. Ela conta que a maioria dos conceitos retomados em A geração incrível, ainda estavam “frescos” em sua memória. “Já faz um tempo desde que A geração ansiosa foi lançado e mais ainda que eu traduzi. Mas foi um livro que ficou muito na minha cabeça. Saíram muitas matérias e muito se discutiu sobre ele”, explica. Agora, ela tem recebido mensagens de mães, querendo saber mais sobre A geração incrível.
O livro vai apresentando curiosidades enquanto ilustra o câmbio profundo no modo de vida e nas relações que o uso e a disseminação dessas tecnologias provocou na geração anterior, a geração Z, dos nascidos entre 1996 e 2010. Para isso, a geração alfa precisa entender como era a infância antes que todas essas tecnologias surgissem. Pais e cuidadores que acompanharem a leitura podem sentir estranhamento e nostalgia quando o texto apresenta às crianças o que era um orelhão, lembra do tempo em que a internet era discada e resgata uma infância diferente, em que as crianças brincavam mais fora de casa e tinham mais autonomia. O livro, aliás, estimula as trocas com crianças e adultos propondo questões como: “Pergunte aos seus pais se eles tiveram um computador conectado à internet por modem ou linha telefônica. Se eles disserem que sim, peça que imitem o som que o modem fazia quando se conectava. (Prepare-se: é um som bem esquisito!)”.
Conceitos importantes - e interessantes - também são apresentados sem complicação. Como a “economia da atenção”, que é como se chama o sistema em que empresas ganham dinheiro vendendo o tempo e atenção de seus clientes para outras empresas, e que ajuda a entender como as redes sociais lucram cada vez que prestamos atenção ou clicamos em um anúncio – que muitas vezes nem sabemos ser um anúncio, o que também é problema. Ou phubbing, que mistura phone (telefone) e snubbing (esnobar), que nada mais é do que esnobar alguém, não prestar atenção a essa pessoa, quando se está com o celular em mãos. Em paralelo, por meio de uma narração em quadrinhos, um grupo de amigos ilustra como o uso de celulares vai minando aos poucos as relações e a convivência, quando o que acontece nas telas desvia o foco do que está se passando no mundo.
Eu não ficava mais com a minha família, nem com os meus amigos da vida real. Os meus amigos da internet eram prioridade. Só que, quanto mais eu me conectava com pessoas de todos os cantos do país, menos conectada eu me sentia com quem estava do meu lado”, Mia, 19 - depoimento do livro 'A geração incrível'
Mas, talvez, o grande mérito de A geração incrível seja trazer depoimentos reais de jovens e adultos que resolveram se relacionar com essas tecnologias de outra forma: eles são os primeiros rebeldes. E os leitores são convidados a se juntarem a essa revolução.

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A pedra mágica e os magos

O livro constrói uma alegoria narrativa, que transforma os smartphones e as redes sociais em pedras mágicas que mantêm as pessoas enfeitiçadas. São os grandes “desperdiçadores de tempo” que foram “feitos para viciar”. E os gigantes da tecnologia são os magos. Aqueles que transformaram uma pedra - que até então era apenas uma pedra - em algo capaz de fascinar, atrair, viciar com sua luz mágica. Por causa dela, as pessoas não conseguiam mais largar da pedra e começaram a se desligar de tudo ao seu redor… A luz mágica são os aplicativos, que principalmente por suas notificações incessantes, capturam toda a nossa atenção.
Quando eu comecei a usar as redes sociais, passei de criadora a consumidora”, Davida, 22 - depoimento do livro ´A geração incrível'
Mas nem todo celular é uma pedra mágica - apenas os smartphones. Assim como nem todo o aplicativo funciona como uma luz brilhante - apenas aqueles que são projetados para prender nossa atenção - seja porque não conseguimos parar de rolar o feed ou porque um vídeo começa automaticamente logo atrás do outro. São muitos os mecanismos que conseguem prender a nossa atenção. A narrativa vai contando, passo a passo, como as empresas – ou melhor, os magos – vão lucrando o uso das redes vai aos poucos rackeando e reprogramando o nosso cérebro, além de expor crianças a adolescentes a situações de risco. Também deverão ser implementados sistemas de detecção de comportamentos de risco, como pornografia e conteúdos de violêcia.
Os magos da tecnologia não se esforçaram muito para tornar os aplicativos seguros para crianças, e adultos bizarros começaram a entrar em contato com elas por meio de jogos on-line e de mensagens em redes sociais. Enquanto muitas das crianças e dos adolescentes ficavam com medo e se sentiam ansiosas e infelizes, seus pais não faziam ideia do que acontecia ali, no mundo on-line.", trecho de 'A geração incrível'
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Mas o que fazem os rebeldes?
As palavras de ordem para os rebeldes são: não deixar que a tecnologia use você (é você quem decide como usá-la!) e preencher a vida de coisas importantes que as telas não nos proporcionam - embora muita gente pense que sim -: diversão, amizade e liberdade! Ser rebelde não significa necessariamente abandonar os smartphones e redes sociais, mas mudar a relação que se tem com eles. É verdade que alguns rebeldes realmente escolhem ficar longe das telas e se comunicam com as pessoas de outras formas que não passam pelas redes sociais - afinal, as chamadas telefônicas continuam funcionando... Há rebeldes que escolhem esperar para ter acesso às redes sociais. Outros decidiram ficar pelo menos uma hora antes de dormir sem o celular - e notam uma melhora significativa no sono… Outros combinam com os amigos que quando estão todos juntos os celulares são deixados de lado. Assim é possível se divertir, criar memórias e prestar atenção nas pessoas, sem ficar distraído por notificações. Fica claro que ser um rebelde não passa por uma fórmula pronta, mas começa por se questionar sobre o uso e a relação que deseja se ter com as telas.
O livro também ajuda os leitores - crianças e adultos - a identificarem quando seu cérebro foi rackeado pelas telas. Sabe quando parece que tudo perde a graça? Nada consegue te motivar. E bate aquele sentimento de estar sempre perdendo alguma coisa… uma sensação que se popularizou como FOMO - fear of missing out. Pode ser que não seja você, mas o seu smartphone. E também mostra como recuperar a concentração e a criatividade que a rolagem infinita do feed acaba roubando de nós, resgatando o gosto por atividades que movimentam o corpo, como dançar e praticar esportes, e que exijam atenção plena, como ler e desenhar.
Haidt e Price também indicam expressamente que, para proteger o cérebro, o ideal é esperar pelo menos até o nono ano (ou mais) para ter um celular e até os 16 anos para entrar nas redes sociais. Mas esta não é uma meta trivial. Para pais e responsáveis, Haidt, em suas falas à imprensa, reforça sempre que a questão do uso de celulares precisa ser pensada a partir de uma perspectiva comum. “A chave que eu encontrei em A geração ansiosa é que esta é uma questão de ação coletiva. O conselho padrão é ‘a gente não pode dizer qual é a idade certa para dar um celular para uma criança. Cada criança é diferente, converse com seu filho’. Não! Se metade das crianças da quinta série têm um telefone, então a sua filha também precisa ter um telefone. Por isso, a única solução para isso é uma ação coletiva. [...] Pessoas estão fazendo coisas que elas sabem que são erradas. Que elas sabem que não fazem bem para elas. Sugere-se que ou é um problema de vício, que traz o mesmo arrependimento que se vê em relação ao cigarro e que é uma decisão individual na maioria das vezes. Ou que é um dilema social, uma armadilha social porque se todo mundo tem, você precisa ter também”.
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O que pode ajudar a criar mais rebeldes?
No processo de tradução de A geração incrível, Lígia chama atenção para o avanço da legislação no Brasil sobre o uso de telas por crianças e jovens. “Os autores apresentam propostas, como se fossem possibilidades, como ‘se a sua escola não aceitar o uso de celular’. Mas no Brasil, com o avanço da legislação, ainda que não seja igual em todas as escolas, a gente já partiu do pressuposto de que celulares não são permitidos”, observa. Vale lembrar que em março de 2016, a lei nº 15.100/2025 que proíbe o uso de celular nas escolas de todo o Brasil, completou um ano. O próprio Haidt já declarou que a legislação brasileira é uma das melhores do mundo em relação ao uso de celulares: “A lei do Brasil é uma das melhores, o dia inteiro sem dispositivos eletrônicos com internet nas escolas”, declarou em entrevista à Folha de S. Paulo.
E desde então, houve mais um avanço importante, com a aprovação do ECA digital, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, passos importantes foram dados na proteção deles no mundo online. As novas regras buscam garantir que menores de 16 anos não recebam conteúdos impróprios, dificultando o acesso a eles. Agora, por exemplo, artifícios que estimulam o vício nas telas, prendendo a atenção por muito tempo estão proibidos, incluindo a rolagem sem fim do feed e a exibição automática contínua de vídeos. Mecanismos de recompensa ou que explorem as fragilidades cognitivas e emocionais também estão proibidas. As regras para verificação de faixa etária foram endurecidas, indo além da autodeclaração.
A geração incrível aposta no protagonismo e no poder de tomar boas decisões das crianças e jovens. E lembra aos pais e cuidadores da responsabilidade necessária na mediação das telas, especialmente em um período da vida em que o cérebro ainda está se moldando. Mas, acima de tudo, reforça a ideia de que estamos em uma luta desigual. Em que não basta ter autocontrole, força de vontade ou agir individualmente. Não é o “meu filho” ou “o seu filho” ou “o filho de alguém”. São os nossos filhos. É toda uma geração que pode não cometer os mesmos erros que a nossa. Uma geração que pode fazer diferente.
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