‘Clotilde’: um livro sobre um sonho, uma galinha e a democracia

17/08/2026

Você tem um sonho?


Algum desejo bem guardado debaixo do colchão só esperando uma brecha para se realizar?

Algo que você talvez nem saiba explicar racionalmente, mas que só de pensar, te faz sorrir por dentro?


Pois o livro do qual vamos falar começa exatamente assim: com um sonho. Clotilde (Companhia das Letrinhas, 2026) é a história de uma mulher que sempre sonhou em ter uma galinha d’angola.  

Clotilde

Qual é a chance de uma galinha d'angola simplesmente aparecer no jardim de uma casa em plena cidade de São Paulo?

 

A mulher, no caso, é Lilia Moritz Schwarcz, historiadora, antropóloga e publisher da Companhia das Letras. E a galinha tão desejada vem a ser a Clotilde, ou Clô, que é protagonista e homenageada deste livro que mistura memória, saudade, humor e algumas conversas sérias. As ilustrações da obra são de Suzane Lopes, já grande parceira de Lilia em outros livros, como Óculos de Cor (Companhia das Letrinhas, 2022) e Enciclopédia negra para jovens leitores (Companhia das Letrinhas, 2025).

Acontece que, para Lilia, a vontade de ter uma galinha d’angola não bastava. Era preciso que a ideia de adotar uma galinácea de estimação também caísse nas graças de seu pequeno eleitorado familiar – no caso, seu marido e seus dois filhos. Infelizmente, para Lilia, o sonho foi recusado pelos votos da maioria. Talvez menos pela falta de amor aos animais do que pelo excesso, já que a casa, é preciso dizer, já era lar de dois cachorros (o Bartô e o Theo), dois papagaios (o Noel e a Rosa), duas tartarugas (a Quincas e a Borba) e dois peixes de aquário (o Asterix e o Obelix). Porém, como já escreveu o escritor e gaúcho Luis Fernando Veríssimo (1936-2025), “as alternativas para a democracia são várias, uma pior do que a outra.” Sendo assim, nada restava a fazer senão respeitar a soberania do voto e guardar na gaveta o sonho da galinha d’angola própria. 

Em nome da democracia e, como nesse regime vence sempre a maioria, abandonei, frustrada, a minha ideia. Confesso, entretanto, que ela nunca me abandonou. Não parava de desenhar na minha mente aquele bichinho de penas pretas com bolinhas brancas, e que parecia sempre estar vestido para uma festa, ou pronto para fazer compras. É certo que seu bico é longo demais, o pescoço um pouco estranho, as pernas, de certa forma, fora de proporção, mas o conjunto, no meu entender, era dos mais graciosos.

Mais bonito ainda, pensava eu, era aquele hino de guerra na garganta delas: “tô fraco, tô fraco, tô fraco”. Achava que esse era um reconhecimento de humildade cidadã nesses tempos em que só há lugares para a história dos vencedores. Afinal, quem é que canta “tô fraco” hoje em dia e com tanto orgulho?"

Mas o destino quis que essa história não terminasse assim.

E, um belo dia surgiu, com suas bolinhas pintadas, seu andar levemente desengonçado e seu canto estridente uma galinha d’angola apareceu justamente no quintal de Lilia. Qual é a chance de algo assim acontecer? A galinha não foi reivindicada por nenhum dono. E assim foi ficando… conquistando espaço, afetos e se tornando parte da história – e hoje das lembranças – da família.

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Família: uma célula democrática fundamental


Nesse relato-homenagem, para além de todo o carinho manifestado pela galinha Clotilde, a autora propõe algumas discussões fundamentais mostrando que democracia, direitos e cidadania estão além da política e dos partidos. São princípios que fazem parte de um modo de vida, que se manifesta nos mais diferentes níveis de organização, inclusive e principalmente, nas famílias. 

Entre o “comitê central” de Lilia, a ideia de ter uma galinha de estimação foi voto vencido. E como em toda democracia que funciona, há que se respeitar a vontade da maioria – ainda que o resultado passe longe do que se desejava ou do que seria, de fato, melhor para a maioria. E talvez, esse seja um dos princípios mais importantes (e difíceis) de se trabalhar desde cedo com as crianças.

Renata Resende, diretora da Escola Classe Comunidade de Aprendizagem do Paranoá, localizada em Brasília (DF), conta sobre a experiência de realizar com alunos de Ensino Fundamental uma assembleia com um objetivo bem específico: decidir sobre o uso de uma determinada área da escola. “Esse espaço normalmente estava dominado pelos meninos que queriam jogar futebol. E a ideia era promover um debate sobre como seria possível ampliar o uso desse local para realizar outras atividades, que pudessem incluir mais crianças”, conta. 

Mas o resultado da votação não saiu exatamente como a gestão da escola esperava. Enquanto com as turmas de 4º e 5º anos da manhã foi possível delimitar tempos de uso do espaço e fazer um outro cardápio de brincadeiras que permitisse a participação de mais crianças, com a turma da tarde, o futebol prevaleceu. Mesmo com as meninas sendo maioria, os meninos conseguiram aprovar na assembleia a prática do futebol em quatro dias da semana. “Algumas das meninas, que estavam mais conscientes, fizeram uma mobilização enorme depois do resultado, passaram um mês indignadas.  Mas mantivemos a decisão da assembleia. Enquanto educadores, a gente percebe que esse não era o caminho a seguir, porque se manteve uma prática excludente. Mas é preciso sustentar o resultado”, reforça. 

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Pequenos gestos que ensaiam grandes decisões

Clotilde

Clotilde tinha um jeitinho todo pintado de ser. Que deixou saudade


Vale pontuar que as assembleias não eram algo novo para os estudantes. Isso porque a Escola Classe Comunidade de Aprendizagem do Paranoá se apoia em diversos dispositivos democráticos para trabalhar processos de escuta e tomada de decisão entre os cerca de 300 alunos de Educação Infantil e Ensino Fundamental 1.

Na Educação infantil, essa premissa se manifesta já no momento da chegada à escola, quando as turmas se reúnem para uma roda de conversa e cada criança tem um espaço para comentar como seu dia começou e como está se sentindo. Em outro momento, há uma dinâmica chamada: gostei/não gostei. A ideia é compartilhar gostos e desgostos que vão desde “não gostei que tem uma criança agredindo outras” ou “gostei que fizemos uma brincadeira nova” ou “não gostei que a sala de aula ficou bagunçada”. Esse exercício permite que as crianças se expressem, comecem a formular opiniões próprias e tomem consciência de seus próprios desejos, incômodos e vontades. “É trabalhoso - tem que escutar, praticar, mas no longo prazo vale a pena, principalmente  porque nem sempre as crianças têm essa escuta em casa. Esse exercício é um embrião na questão do posicionamento crítico. É aos poucos que as crianças vão aprendendo a se posicionar, a colocar essas questões que elas levantam em uma assembleia”, pontua Renata. Para que os temas que as crianças apresentam sejam debatidos na assembleia, elas devem escrever – ou desenhar, no caso dos menores – a questão que levantaram e colocá-la dentro de um envelope. 

Entre os alunos do Ensino Fundamental, as assembleias são realizadas ao longo da semana e acabam funcionando como uma ferramenta não só de decisão de processos e dinâmicas da escola, mas também de mediação de conflitos. Há ocasiões em que até os pais de alunos são convocados para com estudantes durante as assembleias. 

Algumas vezes, também acontecem assembleias entre a escola inteira. Nesse caso, são chamados dois representantes de cada grupo, para discutir temas que afetam a todos, como regras de uso do refeitório. “Quando as crianças estão inseridas nas decisões, elas mesmas trabalham para que o que ficou decidido aconteça. Quando o problema vem deles e a solução também, eles ficam muito mais ativos. Por isso, a gente tenta trabalhar esse protagonismo na tomada de decisão”, explica a diretora. 

Recentemente, as crianças da Educação Infantil se depararam com uma questão bem prática. “Nessa época de queimada, tivemos um incêndio e a fumaça chegou à escola. As crianças ficaram muito incomodadas, tinha fuligem, ficou difícil de respirar - e foi um ‘não gostei’ enorme na assembleia”, conta Renata. A partir das discussões, a turma primeiro decidiu que queria conversar com um bombeiro para entender melhor sobre a prigem fogo. O bombeiro veio, falou com as crianças e identificou que no mato atrás da escola, de onde o fogo vinha, estava muito alto e cheio de entulho. “Em uma nova assembleia, a turma decidiu fazer uma carta para levar para o administrador regional. As crianças precisaram entender quem era ele, o que ele decidia, e produziram uma carta por meio de um texto coletivo e ainda fizeram cartazes para levar para a reunião”, conta Renata. A comissão com pequenos representantes apresentou todos os materiais ao administrador e o terreno foi cuidado pela administração, mas o lixo continua se acumulando ali. “Agora as crianças estão investigando de onde vem o lixo. As assembleias acabam guiando os percursos pedagógicos”, explica a diretora. 

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A democracia nossa de cada dia


Embora a escuta e posicionamento dos estudantes já sejam incentivados na Escola Classe Comunidade de Aprendizagem do Paranoá, Renata conta que as crianças da Educação Infantil foram formalmente introduzidas aos conceitos e dispositivos que desenham um regime democrático por meio de um trabalho com o livro Eleição dos bichos (Companhia das Letrinhas, 2018), de André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun, que formam o Coletivo Sabichinho. “Por meio do livro, explicamos o que é um comitê, apresentamos qual é a ideia de uma eleição e refletimos sobre como se escolhe um líder”, explicou a diretora. A partir das discussões, as crianças se mobilizaram para montar seu próprio comitê, escolhendo os representantes, definindo um nome para turma e elegendo seu mascote – que, assim como a eleita no livro, é uma preguiça.

A autora Paula Desgualdo conta que, apesar de Eleição dos bichos ser um livro muito trabalhado pelas escolas, sobretudo nos períodos que antecedem as eleições, há uma obra do Coletivo Sabichinho que convida a olhar para uma etapa anterior: Quem manda aqui? (Companhia das Letrinhas, 2015), que apresenta diferentes formas de tomada de poder e decisão. Os dois livros foram elaborados a partir de oficinas realizadas com as crianças. “A gente queria conversar sobre o tema, mas principalmente entender em que ponto de conhecimento elas estavam. Muitas vezes as crianças fazem uma assembleia na escola, mas não têm ideia de que isso é fazer política”, conta Paula. 

Para Quem manda aqui?, as oficinas começaram com uma dinâmica em que eram apresentadas várias imagens e as crianças tinham que responder quem é que mandava ali: em um castelo, em um navio, em uma casa. E, depois, refletiam sobre o porquê: por que é um rei que manda em um castelo? (“Porque o pai dele era rei?",  "Porque Deus mandou?”). Depois, as crianças faziam desenhos ilustrando quem mandava em cada lugar. E, então, apenas uma criança era apontada pelos condutores da oficina como “o rei”, aquele que decidiria sozinho quais desenhos seriam escolhidos para fazer parte do livro. E aí é que a confusão normalmente começava. Afinal, como pode alguém ser escolhido de forma aleatória sem todo mundo ter concordado?

Acontece que em alguns regimes, é exatamente assim que acontece. “Nesse momento nós entrávamos explicando que isso se chama monarquia, que no Brasil já foi assim. Mas que há outros jeitos de escolher e propúnhamos que elas pensassem em outras formas. Chegavam ideias desde fazer uni-duni-tê ou um sorteio até que alguém sugeria votar”, conta Paula. O voto é um dispositivo que faz parte da democracia. 

 

Quem nasceu na democracia não consegue conceber que isso poderia não existir. Que não foi sempre assim. Dar opinião, poder discordar, tudo isso tem a ver com democracia. E isso é uma noção que mesmo as crianças maiores não têm” Paula Desgualdo, autora


Por isso, é fundamental poder exercitar em casa e na escola, desde cedo, o direito de se expressar, de ter sua opinião considerada, de poder participar das decisões, de falar e de ouvir. A política não se faz só no palanque, no Congresso, nas campanhas eleitoreiras, mas no dia a dia, em cada decisão que afeta mais pessoas além de você mesmo. Pode ser sobre como usar a quadra da escola, pode ser sobre ter ou não ou bicho de estimação. 

Nunca é demais lembrar que a democracia ainda é a forma de escolha que mais privilegia o bem comum. E que bons líderes não vão simplesmente aparecer no nosso quintal, como fez Clô. É preciso formá-los, reconhecê-los e escolhê-los. E esse trabalho precisa ser feito desde cedo.

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Para fortalecer um comportamento democrático em casa

- Encoraje as crianças a se expressar e formular opiniões. Faça perguntas que as ajudem identificar suas preferências e os motivos de suas escolhas.
- Escute. Abra espaço para que as crianças se coloquem, valide suas opiniões e reforce o poder de expressão e de escolha como direitos.
- Torne claros os processos de escolha e tudo o que eles envolvem. No caso de um bicho de estimação, por exemplo: votar por tê-lo implica em assumir a responsabilidade de cuidá-lo. E isso precisa ser combinado e cumprido.
- Sustente as decisões tomadas de forma democrática – mesmo que o resultado passe longe do ideal. Se arrepender de algumas decisões pode ser uma boa experiência para repensar critérios de escolha. 

(Texto: Naíma Saleh)

 

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