Em 1987, o missionário jesuíta Vicente Cañas foi brutalmente assassinado no Mato Grosso, próximo à aldeia dos enawene-nawe, povo com quem convivia e amava. Numa investigação cheia de falhas, o processo para punir os executores do crime se arrasta por quase quatro décadas. Em O mundo fora da pedra, Rita Carelli reconstitui os fios dessa trama que atravessa sua vida, seu imaginário.
Filha de ativistas da luta indígena, a trajetória de sua família se mistura à de Vicente neste livro, no qual passado e presente se justapõem. A infância da autora com os enawene, a perda da mãe na adolescência, a volta à aldeia com o pai anos depois, a experiência do puerpério na comunidade, a busca por justiça como herança familiar.
Entrelaçando memória e investigação jornalística, Carelli compõe uma obra bela e singular, que carrega múltiplas dimensões -- política, histórica, literária, documental. "Escrevo esta história para apaziguar espíritos, tantos mortos... e ainda não acabaram", diz ela. "Estamos no meio de uma guerra. Para tanto é preciso começar a contá-la desde o início, mas onde começa uma história<"
"O mundo fora da pedra nasce do documento oral da origem dos enawene-nawe, comunidade que Rita Carelli conhece desde que, criança, foi levada pelos pais ao seu território. (...) Rita escreve enquanto gesta sua segunda criança, enquanto cresce a primeira. Ela escreve para gestar justiça, por meio da história contada, para o missionário jesuíta que se transmutou indígena Vicente Cañas. (...) A história dessa luta por justiça é tecida pelo mundo fascinante, coletivo e partilhado dos enawene-nawe, entre a floresta amazônica e o cerrado." Eliane Brum