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Companhia das Letras
RIMAS DA VIDA E DA MORTE
Amós Oz



E estas são as principais perguntas: por que você escreve.
Por que você escreve exatamente dessa maneira. Se você quer influenciar seus leitores. E se quer - em que sentido tenta influenciá-los. Que função exercem suas histórias. Se você apaga e corrige o tempo todo ou deixa o texto fluir direto de sua inspiração. Como é ser um escritor famoso e como isso afeta a sua família. Por que você descreve quase que somente os lados negativos das coisas. Qual a sua opinião sobre outros escritores, quem influenciou você e quem você não suporta. Aliás, como você define a si mesmo? Como responde àqueles que o atacam, e como se sente quanto a isso? Como esses ataques mexem com você? Você escreve à caneta ou usa um teclado? E quanto você ganha mais ou menos com cada livro? Você vai buscar material para suas histórias em sua imaginação ou na vida real? O que pensa a sua ex-mulher das figuras femininas em seus livros? E por que, aliás, você abandonou sua primeira mulher - e a segunda também? Você tem horas fixas para escrever ou só escreve quando a musa lhe ordena? Você é um escritor engajado, e, se é, em que causa? Suas histórias são autobiográficas ou ficcionais? E, principalmente, sendo você um artista, como é que sua vida pessoal não é tão movimentada assim? Pode-se dizer que é uma vida pessoal bem quadradinha? Ou ainda há uma porção de coisas sobre você que não sabemos? E como é que pode um escritor, um artista, trabalhar a vida inteira como contador? O quê? Isso é só um meio de ganhar a vida? E, diga, o fato de ser um contador não acaba totalmente com sua musa inspiradora? Ou você tem também uma outra vida que não quer revelar? Talvez nesta noite você concorde em nos dar pelo menos algumas dicas quanto a isso. E quem sabe poderia nos relatar, resumidamente e em suas próprias palavras, o que exatamente você quis dizer em seu último livro.

Existem respostas espertas e existem respostas evasivas. Respostas simples e diretas não existem.
Portanto o escritor irá se sentar num pequeno café a três ou quatro ruas de distância do prédio do Centro Comunitário Shunia Shor, onde se realizará o sarau literário. O espaço do café lhe parece acachapado e escuro, sufocante, por isso bem adequado a este momento. Ali ele se sentará e tentará se concentrar naquelas perguntas (no curso de sua vida ele tem chegado aos lugares meia hora ou quarenta minutos adiantado, tendo sempre de achar o que fazer até a hora marcada). Em vão tenta a cansada garçonete de saia curta e busto empinado enxugar para ele o tampo da mesa: a superfície de fórmica continua um tanto pegajosa, mesmo depois de passado o pano. Não estaria o próprio pano pouco limpo?
Enquanto isso o escritor observa as pernas da garçonete, pernas cheias e bonitas, somente os tornozelos um pouquinho grossos. Depois olha seu rosto, um rosto agradável, iluminado, as sobrancelhas se tocando e o cabelo preso e amarrado num elástico vermelho. Chega-lhe às narinas um odor de suor e de sabão, o cheiro de uma mulher cansada. Por baixo da saia desenha-se a linha de sua calcinha. Seus olhos são atraídos então para esse contorno insinuado: uma ligeira assimetria na direção da coxa esquerda parece-lhe muito excitante. Ela percebe esse olhar que apalpa suas pernas, suas coxas, seus quadris, e suspira com um ar de asco e de súplica: chega, por favor, já chega.

O escritor então afasta educadamente seu olhar, faz seu pedido de omelete e salada com um pãozinho e um copo de café, tira do maço um cigarro e o segura apagado entre os dedos da mão esquerda, na qual apóia seu rosto: um semblante cheio de espiritualidade, que não impressiona a garçonete porque ela já se havia voltado sobre os saltos rasos de seus sapatos e desaparecido atrás de uma divisória.
Enquanto espera seu prato, o escritor imagina o primeiro amor dessa garçonete (ele decide que o nome dela será Riki): quando tinha apenas dezesseis anos apaixonou-se pelo goleiro
reserva do time do Bnei Iehudá, Charlie, que uma vez, num dia de chuva, apareceu em seu automóvel Lancia diante do salão de beleza no qual ela trabalhava e arrebatou-a de lá para um programa de três dias num hotel de Eilat (um tio dele era sócio-proprietário desse hotel). Em Eilat Charlie também comprou de presente para ela um vestido de noite esplendoroso, um vestido de cantora grega, um vestido com lantejoulas prateadas e tudo, mas depois de duas semanas ele a abandonou e viajou de novo para um programa no mesmo hotel, dessa vez com a vice-Rainha da Água. E Riki, durante os oito anos e os quatro homens que passaram por ela desde então, nunca deixou de sonhar que um dia ele voltaria: ele tinha desses lances em que parecia estar com muita raiva dela, era assustador, perigoso, como se estivesse a ponto de perder o controle, e como ela se assustava!, era a morte, e de súbito, num repente, ele desanuviava e a perdoava e se alegrava com ela como uma criança, e a abraçava, e a chamava de Gogog, beijava seu pescoço, fazia-lhe um pouco de cócegas com seu hálito quente, com a maior delicadeza abria-lhe os lábios com a ponta do nariz, o que provocava no corpo dela uma onda de arrepios mornos como os do mel, e ele de repente a jogava no ar com muita força, como se ela fosse um travesseiro, e ela gritava Imale, mamãezinha, mas ele sempre a aparava no último momento e a abraçava, para que não caísse. Gostava de fazer-lhe cócegas com a ponta da língua, bem de leve e durante muito tempo, atrás de cada orelha e também dentro de cada orelha e um pouco na nuca, no lugar em que começam a aparecer os cabelos mais finos, até que o mel começava a se dissolver dentro dela. Charlie nunca ergueu a mão contra ela ou a ofendeu. Ele foi o primeiro que a ensinou a dançar coladinho e a usar um maiô micro, e também a deitar nua ao sol, de barriga para baixo, fechar os olhos e imaginar todo tipo de azuis, e foi o primeiro a ensinar-lhe o que uns brincos compridos com pedra verde podiam fazer ao rosto e ao pescoço dela.
Mas depois disso obrigaram-no a devolver o Lancia - e também engessaram-lhe a mão, que sofrera uma fissura - e ele foi de novo para Eilat, mas com outra garota, Lucy, que quase fora eleita Rainha da Água, e antes da viagem ele lhe disse: Olha, Gogog, eu sinto muito muito mesmo, mas tente assim mesmo me compreender, o caso é que a Lucy veio antes de você, e nós não nos separamos de verdade, só brigamos um pouquinho e aí demos um tempo, mas agora voltamos, e é isso, e Lucy pediu que lhe dissesse que não tem raiva de você, no hard feelings, você ainda vai ver, Gogog, que depois de algum tempo você vai aos poucos se recuperar do nosso caso e com certeza vai encontrar alguém que combina com você mais do que eu, pois na verdade você merece alguém melhor do que eu, você realmente merece o melhor que existe. E o mais importante não é que para mim e para você, Gogog, vai ficar um do outro só um gosto bom na boca?

O vestido grego de lantejoulas Riki acabou dando de presente para uma prima e o maiô micro ela enfiou no fundo de uma gaveta, atrás dos petrechos de costura, e depois o esqueceu lá: os homens não têm como se comportar de outro modo, é a natureza deles, eles simplesmente têm essa formação ruim e pronto, mas na opinião dela as mulheres não são muito melhores, e por isso o amor é uma coisa que quase sempre de um jeito ou de outro acaba mal.
Charlie já não é, de há muito tempo, do time do Bnei Iehudá. Ele agora tem uma família e três filhos e é dono de uma empresa em Holon que fabrica aquecedores solares e dizem que até os exporta em grande quantidade para os territórios ocupados e para Chipre. E a tal Lucy? Com aquelas suas pernas magras? Queria saber o que lhe aconteceu depois. Charlie também a teria jogado fora assim, depois de usar? Se eu soubesse seu endereço ou seu telefone, e se tivesse coragem, eu a procuraria. Para tomarmos um café. Para conversarmos. Quem sabe não nos tornaríamos amigas? O estranho é que agora não me importo nada com ele, mas com ela sim, um pouco. Nele eu não penso mais, nem mesmo com desprezo, mas nela eu penso às vezes: pois talvez agora ela tenha ficado um pouco como eu. Será que na cama ele também a chamava de Gogog? Ficava rindo e fazendo aquilo entre os lábios dela, indo e vindo com a ponta do nariz? Devagarinho, delicadamente, ia descobrindo junto com ela, junto com a mão dela, como era o seu corpo? Se conseguisse encontrá-la talvez falássemos sobre isso, e aos poucos nos tornaríamos amigas.
Entre uma mulher e um homem, amizade é uma coisa impossível: se há entre eles eletricidade já não poderá haver amizade. E se não há entre eles eletricidade, então não poderá haver mais nada. Mas entre garotas, sobretudo entre duas garotas que já tiveram dos homens uma dose suficiente de sofrimento e de decepções, e talvez mais ainda exatamente entre duas garotas que sofreram ambas com o mesmo cara... Quem sabe eu não devia mesmo tentar encontrar uma vez essa Lucy?
[...]

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