E se Bertoleza fosse a verdadeira e legítima dona d'O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Com apresentação de Lilia Guerra, uma das grandes vozes da literatura contemporânea, esta edição é um convite à releitura de um dos clássicos brasileiros a partir da vida das mulheres negras
Publicado em 1890, O cortiço, de Aluísio Azevedo, é um marco na literatura brasileira ao retratar toda uma coletividade até então largamente ignorada como protagonista de seus dramas: lavadeiras, pedreiros, prostitutas, cozinheiras, capoeiras, imigrantes, que se amontoam na habitação coletiva comandada pelo português João Romão e mantida às custas da exploração do trabalho da ex-escravizada Bertoleza.
Marco da estética naturalista, em que a literatura se transformava num campo de análise da sociedade a partir do meio, da hereditariedade e da biologia, o romance escancara como a preocupação com os rumos da sociedade brasileira na segunda metade do século XIX se traduzia numa preocupação com o destino e o (não) lugar da população negra numa nação que mirava no embranquecimento como forma de progresso.
Controverso e perturbador, O cortiço, como todo clássico, não deixa de ser capaz de produzir novas perguntas. Assim, inspirados por Lilia Guerra, somos levados a reler a obra com uma pergunta que parecia até então impensável e impossível: o que Bertoleza conquistaria se fosse livre? Neste convite à imaginação, Bertoleza pode ser a dona do barraco, do cortiço e, principalmente, da liberdade que lhe foi roubada.