Entre o real e o lendário, o cômico e o trágico, Vasto mundo desenha um retrato coletivo feito de fé, injustiça e resistência. Com uma prosa ímpar, Maria Valéria Rezende, autora vencedora do prêmio Jabuti, transforma o cotidiano de pessoas simples em literatura de força rara.
Na vila de Farinhada, lugarejo fictício do Nordeste brasileiro onde o chão parece guardar a memória e os segredos de quem o pisa, cada história revela um fragmento da vida de seus moradores. Em "A obrigação", dona Ceiça, aflita com a fraqueza do marido, decide assumir para si um voto que ele já não pode cumprir, numa peregrinação que a leva a encontrar uma solução inesperada para o amor e o pecado. Em "Morte certa", um pistoleiro acostumado à impunidade é consumido pelo próprio medo. Em "O tempo em que dona Eulália foi feliz", a mulher de um coronel descobre, na ausência do marido, a alegria e o poder de mandar, governando por um breve instante um mundo mais justo. E em "Sonhar é preciso", o menino Ramiro descobre que seus sonhos se tornam realidade -- um dom que o leva do espanto à loucura.
Outros episódios seguem o mesmo compasso: histórias de gente comum que, na convivência, na luta ou na imaginação, busca um modo de suportar o peso da vida. Sem sentimentalismo, mas com profunda empatia, Maria Valéria Rezende transforma os dias de Farinhada em retratos do que significa ser humano.